Alerta sobre Vírus Sincicial Respiratório: riscos crescentes para idosos no Brasil

Enquanto a atenção pública frequentemente se volta para a influenza A e outras infecções respiratórias sazonais, um agente viral menos conhecido, o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), emerge como uma preocupação crescente, especialmente para a população idosa no Brasil. Tradicionalmente associado a quadros graves em bebês, o VSR tem demonstrado um impacto significativo e subestimado em adultos e, em particular, em pessoas com mais de 50 anos, conforme alertam especialistas e dados recentes do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

No primeiro trimestre deste ano, o VSR foi responsável por 18% dos casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) com identificação viral confirmada. A tendência de aumento é notável: de fevereiro a março, o vírus correspondeu a 14% dos casos de síndrome com vírus confirmados, proporção que subiu para 19,9% entre março e abril. Em um dado que ressalta sua persistência, em 2025, por 23 semanas consecutivas (de março a agosto), o VSR foi o vírus mais prevalente nos registros analisados.

O Aumento Silencioso do VSR e a Subestimação dos Riscos

Os números apresentados são apenas a “ponta do iceberg”, segundo a pneumologista e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Rosemeri Maurici. Ela destaca que o risco do VSR é frequentemente subestimado, especialmente em adultos e idosos. A testagem em larga escala para o VSR no Brasil só se intensificou a partir da pandemia de COVID-19, o que significa que o verdadeiro impacto da doença ainda está sendo mapeado.

A falta de diagnóstico é um problema crítico. Dos cerca de 27,6 mil casos de SRAG registrados no primeiro trimestre deste ano, o vírus causador foi identificado em apenas um terço (9.079 casos), e quase 17% dos pacientes sequer foram testados. “Muitos hospitais internam pacientes com síndrome respiratória aguda grave, e eles até morrem, sem saber qual o agente que causou, porque não testaram ou testaram fora do prazo que é identificável”, explica Maurici.

A percepção de que o VSR afeta apenas crianças, por ser o principal causador da bronquiolite em bebês, contribui para a subestimação em adultos. De fato, dos 1.651 casos graves de infecção por VSR registrados de janeiro a março, a maioria (1.342) ocorreu em menores de dois anos. Contudo, a médica ressalta que a carga viral do VSR diminui mais rapidamente em pacientes adultos (após 72 horas), dificultando a detecção e influenciando as estatísticas.

Vulnerabilidade Ampliada: Idosos e Comorbidades sob Ameaça

Embora os casos confirmados em idosos sejam menores, os dados de mortalidade revelam uma realidade mais preocupante: das 27 mortes por VSR este ano, 17 foram em bebês de até 2 anos, mas sete ocorreram entre idosos com 65 anos ou mais. A geriatra Maisa Kairalla aponta que o envelhecimento natural, com o declínio do sistema imunológico (imunosenescência), e a prevalência de doenças crônicas no Brasil, tornam essa população mais suscetível a quadros graves.

A literatura médica, conforme apresentado por Maísa Kairalla, indica que o VSR representa um risco particular para os idosos. Um paciente idoso infectado tem 2,7 vezes mais chances de desenvolver pneumonia e o dobro de chances de precisar de UTI, intubação e de vir a óbito, em comparação com a influenza. Além disso, o cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Múcio Tavares, alertou que mais de 60% dos casos graves associados ao VSR ocorrem em pacientes com alguma doença cardiovascular. “As doenças virais respiratórias costumam levar a eventos cardiovasculares e cérebro-vasculares, como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e piora da insuficiência cardíaca. Isso tudo acontece porque a infecção viral causa uma inflamação sistêmica no organismo”, detalhou.

Pacientes com diabetes também enfrentam maior vulnerabilidade. O endocrinologista Rodrigo Mendes explica que a maior concentração de glicose no sangue os torna mais suscetíveis a infecções e agravamentos. “Muitas vezes, o paciente está com a doença controlada e o tratamento estável há algum tempo. Aí ele contrai uma infecção, que gera uma resposta inflamatória exacerbada e ele não só precisa ser hospitalizado como também passa a precisar de um tratamento mais complexo”, acrescenta Mendes.

A pneumologista Rosemeri Maurici também enfatiza os riscos para pessoas com doenças respiratórias crônicas, como asma grave e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Para esses pacientes, uma internação em UTI por VSR aumenta em 70% a probabilidade de morte em até três anos, além de acelerar a perda da função pulmonar e elevar a chance de novas internações.

Prevenção e o Caminho para a Vacinação Ampliada

A prevenção do VSR, especialmente de suas formas graves, é possível por meio da vacinação. No entanto, os imunizantes contra o vírus para a população adulta estão, por enquanto, disponíveis apenas na rede privada de saúde. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a vacina apenas para gestantes, visando proteger os bebês nos primeiros meses de vida.

Entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), recomendam a imunização para pessoas de 50 a 69 anos com comorbidades e para todos os idosos a partir dos 70 anos. Diante desse cenário, Rosemeri Maurici, que também coordena a Comissão de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, sugere que as sociedades médicas apresentem os grupos prioritários à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), a fim de recomendar a adoção de novas terapias ao Ministério da Saúde. A inclusão da vacina no SUS para adultos e idosos representaria um avanço significativo na proteção de uma parcela vulnerável da população brasileira.

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