O Brasil registrou 989 denúncias de atos de ódio contra judeus em 2025, um número que, embora inferior ao pico de 2024, acende um alerta sobre a persistência do antissemitismo no país. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) em seu Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, revelando um cenário onde o preconceito antijudaico não apenas se mantém, mas se consolida, especialmente no ambiente digital.
A análise da Conib aponta que, apesar da redução em relação aos 1.788 casos contabilizados em 2024, o volume de denúncias de 2025 superou em 149% o registrado em 2022, quando foram notificados 397 casos. Essa flutuação numérica esconde uma realidade mais profunda e preocupante: a instalação do ódio antijudaico. O relatório enfatiza que a leitura superficial dos dados pode mascarar a gravidade da situação, que transcende a mera contagem de incidentes e sinaliza uma mudança estrutural na forma como o antissemitismo se manifesta na sociedade brasileira.
A permanência do ódio antijudaico no cenário nacional
O relatório da Conib destaca que a diminuição dos casos em 2025, comparado a 2024, não representa um recuo do ódio, mas sim sua permanência e enraizamento. Segundo o documento, “a leitura imediata esconde um dado que especialistas chamam de mais preocupante do que a própria escalada: a permanência. Em relação ao período que antecedeu o ataque do Hamas ao sul de Israel em 7 de outubro de 2023, o ódio antijudaico não recuou, ele se instalou”. Essa afirmação sublinha um ponto crucial: o evento de 7 de outubro de 2023, que gerou repercussão global, parece ter catalisado a manifestação de sentimentos antissemitas que, antes, poderiam estar latentes ou menos expressos.
A persistência do antissemitismo no Brasil reflete um fenômeno global, onde o preconceito contra judeus tem encontrado novos meios de propagação e legitimação. Historicamente, o antissemitismo é uma das formas mais antigas e persistentes de ódio, adaptando-se a diferentes contextos sociais e políticos. No Brasil, essa permanência é um indicativo de que as raízes do preconceito ainda são profundas, exigindo ações contínuas de educação, conscientização e combate à intolerância. A Conib, ao divulgar esses dados, busca não apenas quantificar o problema, mas também provocar uma reflexão sobre suas causas e consequências para a sociedade como um todo.
O ambiente digital como palco principal do antissemitismo
Uma das revelações mais alarmantes do relatório de 2025 é a predominância do ambiente digital como vetor para a propagação do ódio antijudaico. Dos 989 casos registrados, impressionantes 800 (equivalente a 80,8%) ocorreram em plataformas online. Este dado ressalta a urgência de se abordar o papel das redes sociais e outras mídias digitais na disseminação de discursos de ódio. O Instagram concentrou a maior parte das denúncias online, com 37,1%, seguido pelo Twitter/X (13,9%) e Facebook (11,6%), evidenciando a capilaridade e o alcance dessas plataformas.
A facilidade de anonimato e a velocidade de propagação de conteúdo nas redes sociais criam um terreno fértil para o antissemitismo. O levantamento da Conib, utilizando inteligência artificial, identificou 115.970 manifestações classificadas como antissemitas na internet em 2025. O potencial de alcance desse conteúdo é ainda mais preocupante, atingindo estimados 66 milhões de pessoas – o que representa mais de um terço da população adulta brasileira. Essa vasta exposição a mensagens de ódio não apenas normaliza o preconceito, mas também pode incitar atos de discriminação e violência no mundo real, tornando o combate ao antissemitismo digital um desafio complexo e multifacetado.
Implicações sociais e o alerta para a democracia brasileira
O relatório da Conib vai além da mera contagem de casos, emitindo um grave alerta sobre as implicações sociais e políticas do antissemitismo. O documento enfatiza que “o antissemitismo não é um problema restrito à comunidade judaica. Historicamente, ele antecipa processos de erosão democrática, naturalização da violência simbólica e enfraquecimento do estado de direito. Onde ele avança, outras formas de intolerância e autoritarismo tendem a se seguir”. Essa perspectiva contextualiza o antissemitismo como um indicador de fragilidade democrática, um sinal de alerta para toda a sociedade.
No contexto brasileiro, onde a diversidade cultural e religiosa é uma marca, a ascensão de qualquer forma de intolerância representa uma ameaça aos pilares da convivência pacífica e do respeito mútuo. A naturalização da violência simbólica, que se manifesta em discursos de ódio e preconceito, pode gradualmente corroer o tecido social, abrindo espaço para outras formas de discriminação e autoritarismo. Combater o antissemitismo, portanto, não é apenas uma questão de proteger uma comunidade específica, mas de defender os princípios fundamentais de uma sociedade justa, plural e democrática. A vigilância e a ação contra o ódio são essenciais para garantir que o Brasil continue a ser um país onde todos os cidadãos, independentemente de sua fé ou origem, possam viver com dignidade e segurança.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


















