A Argentina rememorou nesta terça-feira, 24 de março, os 50 anos do golpe militar de 1976 que mergulhou o país em uma ditadura. A data, tradicionalmente celebrada como o Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça, foi marcada por um contraste agudo: enquanto o governo do presidente Javier Milei divulgava um vídeo que relativiza os crimes do regime autoritário e critica seus opositores, dezenas de milhares de pessoas tomavam as ruas de Buenos Aires e de outras cidades em uma massiva marcha em defesa da memória e dos direitos humanos.
A Mensagem Governamental Controversa
A administração Milei utilizou suas redes sociais para publicar um documentário de mais de uma hora de duração, no qual adota uma perspectiva crítica em relação aos movimentos de oposição à ditadura e ao kirchnerismo, que impulsionou a responsabilização de militares envolvidos nos crimes. O vídeo, lançado exatamente no aniversário do golpe, incluiu depoimentos que buscam reavaliar o período, gerando imediata controvérsia e consolidando a polarização em torno da narrativa histórica oficial.
O Testemunho Central e as Acusações
Um dos principais destaques do vídeo governamental foi a entrevista com Miriam Fernández, cujos pais biológicos foram mortos em centros de prisão e tortura do regime militar. Fernández, adotada clandestinamente na infância por uma família de militares, defende seus pais adotivos, um ex-policial e sua esposa, argumentando que 'pai não é aquele que te traz ao mundo, mas sim aquele que te cria'. Ela também expressa ter sofrido preconceito após o fim da ditadura por sua conexão com uma família que apoiou o regime.
No mesmo material, Fernández direcionou críticas à Associação Avós da Praça de Maio, organização emblemática na busca por netos desaparecidos durante a ditadura. Ela acusou a entidade, próxima ao governo Kirchner, de 'misturar política' em suas ações e relatou ter sido supostamente obrigada a realizar um teste de DNA para confirmar sua identidade biológica. Vale ressaltar que os pais adotivos de Fernández enfrentaram condenações judiciais: o pai por retenção e ocultação de menor de idade e outros crimes contra a humanidade, e a mãe como coautora.
O Legado da Ditadura e a Luta por Justiça
A ditadura militar argentina, que perdurou de 1976 a 1983, é amplamente reconhecida por ter deixado um rastro de violência e violações de direitos humanos, com estimativas de mais de 30 mil opositores mortos ou desaparecidos e milhares de pessoas torturadas em centros clandestinos como a ESMA. A luta para responsabilizar os generais e demais envolvidos no regime foi intensificada nos últimos anos, especialmente durante os governos kirchneristas, que priorizaram a reabertura de processos e a promoção da justiça de transição, reafirmando o compromisso com a memória das vítimas.
A Força do Grito 'Nunca Mais' nas Ruas
Em um claro contraponto à postura governamental, dezenas de milhares de cidadãos se reuniram em Buenos Aires e em diversas outras cidades para uma monumental jornada de memória. Sob o lema 'Nunca Mais', que se tornou um símbolo inabalável para gerações de argentinos, a mobilização central em Buenos Aires estendeu-se por quilômetros, unindo a Praça de Maio à Avenida 9 de Julho, com ruas adjacentes completamente tomadas por manifestantes.
Organismos de direitos humanos, sindicatos e diversas organizações sociais lideraram as convocações, com os participantes carregando fotos dos desaparecidos, prestando uma emocionante homenagem às vítimas e reafirmando o valor da democracia e da justiça. A intensidade e a dimensão da marcha sublinharam a persistência da memória coletiva e o desejo de grande parte da sociedade argentina de não esquecer os horrores da ditadura.
A Repercussão do Dia da Memória
A dualidade observada neste 24 de março, com o governo promovendo uma visão revisionista em contraste com a massiva mobilização popular, ilustra a complexidade e a vivacidade do debate sobre a memória histórica na Argentina. Enquanto o governo Milei busca questionar narrativas estabelecidas, a sociedade civil, através de manifestações e engajamento, reforça a importância de lembrar e honrar as vítimas do período autoritário, garantindo que o passado sirva como baluarte para a defesa das liberdades e da democracia no presente e no futuro.
Fonte: https://g1.globo.com


















