As empresas brasileiras carregam um papel estratégico e fundamental no combate à violência contra meninas e mulheres, devendo atuar em frentes de prevenção, intervenção e acolhimento. Essa foi a avaliação destacada nesta terça-feira, 31 de março de 2026, pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Rosa, durante um evento no Rio de Janeiro. Para o secretário, o setor produtivo não apenas deve oferecer suporte, mas também precisa catalisar transformações culturais profundas, essenciais para enfrentar as raízes do elevado número de feminicídios no país.
A urgência da pauta é corroborada por dados alarmantes. No Brasil, a cada dia, seis mulheres são vítimas de assassinato, conforme o mais recente Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina. O documento revela que, no ano passado, foram registradas 2,1 mil vítimas e 4,7 mil tentativas de feminicídios, números que evidenciam a gravidade e a persistência dessa chaga social.
O papel estratégico das empresas e a transformação cultural
Durante o evento “Responsabilidade Empresarial no Enfrentamento ao Feminicídio, à Violência de Gênero e pela Transformação Cultural”, promovido pela Petrobras, Governo Federal e Banco do Brasil no Museu de Arte Moderna do Rio, Márcio Rosa enfatizou que a luta contra a violência de gênero não pode se limitar ao endurecimento da legislação penal após o crime. A prioridade, segundo ele, deve ser a ação preventiva, começando pela garantia de um ambiente de trabalho livre de qualquer forma de violência.
“Das empresas, o que se espera é a prevenção, a intervenção, o acolhimento, o suporte”, afirmou Rosa, ressaltando a responsabilidade que se estende para além dos muros corporativos. O secretário defendeu que as empresas devem exigir as mesmas práticas de sua cadeia de fornecedores, ampliando o alcance das ações de combate à violência.
A omissão institucional e a necessidade de canais seguros
Márcio Rosa classificou a inação das empresas diante do tema como uma “omissão institucional” e uma falha ética. Ele criticou veementemente práticas corporativas que desestimulam denúncias, expõem as vítimas ou falham em punir agressores. Empresas que não estabelecem canais seguros para denúncias ou que, de alguma forma, penalizam as vítimas, contribuem para a perpetuação do problema.
“É preciso, óbvio, combater a cultura interna permissiva a qualquer forma de assédio ou de violência”, disse o secretário, sublinhando a importância de políticas internas robustas. Ele também propôs que as mulheres sejam protagonistas na formulação dessas políticas, garantindo que as ações sejam concretas e integradas ao cotidiano das organizações. “A cultura só muda quando vem acompanhada de ações cotidianas, concretas e naturais”, concluiu.
Exemplos de sucesso e a força da conscientização
A empresária Luiza Trajano, fundadora da Magazine Luiza, apresentou o “Canal Mulher”, uma iniciativa criada para apoiar funcionárias vítimas de violência doméstica. O modelo surgiu em 2017, após uma funcionária ser vítima de feminicídio, e oferece suporte psicológico e jurídico. A empresa chegou a pagar aluguel para uma funcionária sair de casa, e em 2019, o aplicativo da Magazine Luiza incorporou um botão de denúncia que aciona o 180 imediatamente.
“Nós fizemos um pacto, treinamos também homens para identificar e lidar com essa situação, e nunca mais a nossa empresa vai perder uma mulher por essa violência”, declarou Trajano. Ela elogiou o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio, que adota uma abordagem direcionada aos homens, destacando a importância de envolver todos na causa.
Wania Sant’Anna, presidenta do Pacto de Promoção da Equidade Racial, reforçou que as empresas têm um papel extraordinário na conscientização da sociedade. “Os números não são um mero acaso, refletem uma cultura historicamente violenta contra as mulheres e que é tolerada”, avaliou, questionando a sociedade que está sendo forjada diante da crueldade dos crimes. Ela sugeriu que cada empresa atue em seu ramo, comunicando-se com trabalhadores e o público, como estampar a mensagem em bombas de gasolina ou em aviões.
O Pacto Global da ONU e o combate à misoginia
Para apoiar as empresas, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Pacto Global, que oferece diretrizes para ações concretas em direção às transformações sociais necessárias. Monica Gregori, diretora da iniciativa, destacou a importância de as corporações combaterem primeiro as violências institucionais, como o assédio moral e sexual, que ainda são presentes.
“As empresas podem adotar mecanismos de prevenção, desde conscientização, em relação à violência de gênero, pois, o feminicídio é o último ponto dessa violência, como combater o assédio moral e sexual, que a gente ainda vê nas corporações”, ressaltou Gregori. A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, entusiasta da iniciativa, também cobrou apoio a propostas que buscam criminalizar a misoginia, da qual ela própria tem sido vítima, especialmente nas redes sociais.
O compromisso do Ministério da Indústria com o tema, reforçado por Márcio Rosa, integra o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio, que envolve governo e sociedade civil. A atuação conjunta é vista como a única forma de romper o ciclo de violência. “Essa não é uma pauta para amanhã, já deveria ter sido adotada ontem”, concluiu o secretário, enfatizando a urgência e a responsabilidade coletiva. Acompanhe o PB em Rede para mais informações relevantes e contextualizadas sobre este e outros temas que impactam a sociedade brasileira.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br



















