A relação entre Paquistão e Afeganistão atingiu um ponto crítico nesta quinta-feira (26), com o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, declarando publicamente que a “paciência se esgotou” e que o país está à beira de uma “guerra aberta” contra o vizinho. A dramática declaração segue uma série de intensos confrontos militares que se desenrolaram ao longo da fronteira comum, reacendendo temores de um conflito em larga escala na já volátil região.
A tensão acumulada por semanas culminou em ações militares diretas de ambos os lados, com acusações mútuas e retaliações que ameaçam desestabilizar ainda mais o cenário geopolítico local. As palavras de Asif sinalizam uma postura de confronto sem precedentes, após tentativas diplomáticas frustradas de resolver as diferenças.
A Cronologia da Escalada Militar Recente
A mais recente onda de violência começou no fim de semana, quando o Paquistão lançou bombardeios aéreos contra acampamentos de militantes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) e do Estado Islâmico, localizados em território afegão. Essa ação foi motivada por alegações de que esses grupos utilizam o Afeganistão como refúgio para planejar e executar ataques contra o Paquistão, uma acusação que o governo afegão nega veementemente.
A resposta do Talibã, que governa o Afeganistão, não demorou. No mesmo dia da declaração paquistanesa, o Afeganistão anunciou uma ofensiva contra posições militares paquistanesas na fronteira, caracterizando-a como uma retaliação direta aos bombardeios anteriores. Horas depois, o Paquistão respondeu com novos ataques, atingindo a capital afegã, Cabul, e outras cidades, conforme confirmado pelo porta-voz do governo do Afeganistão, Zabihullah Mujahid. Detalhes sobre possíveis vítimas ainda não foram divulgados, aumentando a incerteza sobre a extensão do conflito.
O Cerne da Disputa: O Grupo TTP e Acusações de Abrigo a Militantes
A raiz da discórdia é a presença do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), um grupo militante que opera contra o governo paquistanês. Islamabad tem reiteradamente acusado o Afeganistão de abrigar e permitir que militantes do TTP organizem ataques a partir de seu solo. Esta alegação, consistentemente negada por Cabul, é central para a escalada atual e reflete uma profunda desconfiança entre os dois países.
Em suas declarações, Khawaja Asif não poupou críticas ao Talibã, acusando-o não apenas de permitir a presença de militantes internacionais, mas também de privar a população afegã de direitos básicos, especialmente as mulheres. O ministro paquistanês enfatizou que os esforços diplomáticos para resolver a questão foram esgotados, e que agora o Paquistão está preparado para uma “resposta decisiva” e um “confronto total”, lembrando que, como vizinhos, conhecem bem as capacidades um do outro.
Risco de Ruptura do Cessar-Fogo e Implicações Regionais
A recente troca de ataques coloca em grave risco o frágil cessar-fogo mediado pelo Catar, que, apesar de episódios esporádicos de violência, vinha sendo mantido. As rodadas de negociação realizadas em novembro anterior não conseguiram resultar em um acordo formal, deixando a região em um estado de vulnerabilidade contínua. A deterioração das relações agora ameaça anular qualquer progresso feito e abrir caminho para uma crise de segurança mais ampla.
O porta-voz do Talibã, por sua vez, reagiu às ameaças paquistanesas, afirmando que, se o Paquistão atacar Cabul ou outras cidades importantes, o Afeganistão retaliará atingindo “centros-chave e cidades importantes” no território vizinho. Embora tenha ressaltado que o grupo não busca ampliar o conflito, a retórica belicosa de ambos os lados sugere uma prontidão para intensificar a confrontação, caso as linhas vermelhas sejam cruzadas.
Apelo Internacional por Contenção e Diplomacia
Diante da escalada iminente, a Organização das Nações Unidas (ONU) manifestou profunda preocupação e fez um apelo urgente para que ambos os lados protejam os civis e busquem uma solução diplomática para o conflito. A comunidade internacional observa com apreensão, ciente do potencial desestabilizador de uma guerra aberta entre duas nações com histórico de tensões e complexas dinâmicas regionais.
O chamado da ONU sublinha a gravidade da situação e a necessidade de desescalada imediata. A persistência dos confrontos não só ameaça vidas e a infraestrutura de ambos os países, mas também pode ter repercussões significativas para a estabilidade do Sul da Ásia, reforçando a urgência de retomar os canais de diálogo e evitar uma catástrofe humanitária e política.
A declaração de “guerra aberta” por parte do Paquistão marca um ponto de não retorno retórico e militar. A comunidade internacional aguarda os próximos passos, esperando que a diplomacia, mesmo após o esgotamento da paciência declarada, possa ainda prevalecer sobre o caminho da guerra.
Fonte: https://g1.globo.com

















