O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, reiterou nesta quinta-feira (26) a posição oficial de seu país, desmentindo categoricamente a intenção de desenvolver armas nucleares. A declaração foi feita durante uma coletiva de imprensa em Nova York, coincidindo com a terceira rodada de negociações nucleares de alto nível entre Teerã e Washington. A afirmação de Pezeshkian vem em um momento de crescentes acusações por parte dos Estados Unidos, que persistem em alegar que o programa nuclear iraniano possui ambições bélicas, gerando um cenário de delicado equilíbrio entre a diplomacia e a escalada de tensões.
A Doutrina Nuclear Iraniana: A Fatwa do Líder Supremo
A postura iraniana de não proliferação nuclear, conforme articulada por Pezeshkian, fundamenta-se em um decreto religioso, ou fatwa, emitido pelo Líder Supremo Ali Khamenei. Promulgada no início dos anos 2000, esta fatwa proíbe explicitamente o desenvolvimento de armas nucleares, servindo como a pedra angular da política oficial de Teerã sobre o tema. O presidente iraniano enfatizou que essa proibição religiosa constitui uma clara diretriz, dissipando qualquer dúvida sobre a verdadeira natureza de suas atividades nucleares.
Acusações Americanas e a Escalada da Retórica
Em contraste com as garantias iranianas, o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, manteve uma retórica de forte acusação. Em seu discurso sobre o Estado da União, proferido dias antes das declarações de Pezeshkian, Trump alegou que o Irã estaria buscando ativamente armas nucleares e desenvolvendo mísseis com capacidade de atingir tanto a Europa quanto bases americanas no exterior, e que estariam trabalhando para construir mísseis que poderiam alcançar os próprios Estados Unidos. Ele alertou que, apesar dos avisos, Teerã teria "voltado a perseguir suas ambições nucleares" e relembrou ataques atribuídos aos EUA contra o Irã, alegando a destruição de um suposto programa de armas nucleares em uma ocasião anterior. Embora manifestando preferência pela diplomacia, Trump prometeu que jamais permitiria que o que ele descreveu como o "maior patrocinador do terrorismo no mundo" obtivesse uma arma nuclear. O Irã, por sua vez, classificou as acusações de Trump como "grandes mentiras" e acusou o governo norte-americano de conduzir uma "campanha de desinformação".
O Cenário das Negociações: Diálogo em Meio à Tensão
A terceira rodada de negociações nucleares entre Irã e EUA, realizada em Genebra, Suíça, é vista como um momento crucial para o futuro das relações entre os dois países. Fontes como o jornal britânico The Guardian indicaram que as decisões de Washington sobre possíveis ações militares poderiam estar vinculadas ao resultado desses encontros. A principal demanda dos EUA é que o Irã interrompa o enriquecimento de urânio, preocupados com a possibilidade de que o material seja usado para construir uma bomba. Além disso, a delegação americana busca restringir o alcance dos mísseis balísticos iranianos e que o país cesse seu apoio a grupos armados no Oriente Médio.
O governo iraniano, entretanto, insiste que seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos, voltados para a produção de energia, e defende que as negociações se limitem estritamente ao programa nuclear. Teerã sinaliza disposição para reduzir o nível de enriquecimento de urânio, mas condiciona essa medida ao fim das sanções econômicas impostas contra o país. Um encontro anterior, ocorrido em 17 de fevereiro, também em Genebra, gerou declarações de "progresso" por parte da delegação iraniana e de "certo avanço" pela Casa Branca, indicando que, apesar das profundas divergências, o canal diplomático permanece aberto.
Perspectivas Futuras e o Equilíbrio Delicado
As negociações entre Irã e Estados Unidos representam um complexo tabuleiro geopolítico, onde a desconfiança mútua e as acusações históricas se entrelaçam com a busca por soluções diplomáticas. Enquanto o Irã se apoia em um decreto religioso para justificar a natureza pacífica de seu programa nuclear, os EUA exigem garantias concretas sobre a não proliferação e a contenção de atividades consideradas desestabilizadoras na região. O destino de um possível acordo, e a própria estabilidade do Oriente Médio, dependem da capacidade das partes em encontrar um terreno comum para além das retóricas, em um cenário onde a linha entre a negociação e a escalada de confrontos permanece tênue.
Fonte: https://g1.globo.com

















