Um magistrado da comarca de São Mateus do Sul, no Paraná, gerou repercussão ao desabafar publicamente sobre as limitações impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) aos chamados “penduricalhos” salariais. As declarações, feitas antes de uma sessão do Tribunal do Júri, expressaram profunda insatisfação com a remuneração atual da carreira, comparando-a a outras profissões e levantando questões sobre o futuro da magistratura no país.
O episódio ocorre em um momento de intenso debate sobre os salários e benefícios no Judiciário brasileiro, especialmente após a recente decisão do STF que busca regulamentar as verbas indenizatórias. A discussão reacende a polêmica em torno dos vencimentos dos membros do sistema de justiça e a percepção pública sobre a adequação desses valores.
Desabafo de magistrado sobre a remuneração judicial
O juiz em questão, que não teve seu nome divulgado, proferiu críticas contundentes à situação salarial da magistratura. Ele afirmou que a remuneração de um magistrado seria inferior à de um médico do SUS, especificamente a hora paga a um médico generalista. “A remuneração hoje de um magistrado é menor do que o médico do SUS”, declarou, acrescentando que a hora de trabalho de um médico do SUS seria superior à de um magistrado.
As declarações, publicadas pelo portal jurídico Migalhas, incluíram uma comparação ainda mais drástica: o juiz previu que sua remuneração seria menor que a de um vendedor de sorvetes. Ele expressou a intenção de abandonar a carreira, ironizando que, com doutorado e longas jornadas de trabalho, não permaneceria na magistratura para “fazer inspeção em cadeia” com o salário atual. O magistrado, cujo último contracheque líquido teria sido de R$ 120 mil, chegou a afirmar que montaria uma banca para defender casos da Lava Jato.
O desabafo ocorreu na presença de pessoas que aguardavam atendimento judicial, e o juiz não se preocupou com a possibilidade de ser gravado. Ele questionou a valorização de seu trabalho pela sociedade, ameaçando não estar disponível para conceder medidas protetivas ou alvarás de soltura em horários incomuns se o trabalho não fosse devidamente reconhecido.
Impacto das novas regras do Supremo Tribunal Federal
A insatisfação do juiz surge no contexto de novas regras estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal em relação às verbas indenizatórias de magistrados e membros do Ministério Público. A decisão do STF, proferida em uma quarta-feira, fixou que apenas parcelas expressamente previstas em lei federal poderão integrar a remuneração. Essa medida visa pôr fim aos “penduricalhos” decididos regionalmente por atos administrativos ou interpretações flexíveis.
Na prática, o teto remuneratório constitucional, atualmente em R$ 46.366,19, poderá ser extrapolado por indenizações específicas. Entre as verbas que ainda podem ser pagas acima do teto estão adicionais por tempo de serviço, diárias, ajuda de custo, indenização de férias e gratificação por acúmulo de funções. Com essas exceções, o novo “teto acima do teto” poderá atingir R$ 78 mil.
O debate sobre os salários na magistratura brasileira
A discussão sobre os salários no Judiciário brasileiro é recorrente e gera controvérsia. As declarações do juiz do Paraná refletem uma percepção de desvalorização da carreira por parte de alguns magistrados, contrastando com dados que mostram remunerações elevadas em comparação com a média nacional.
Segundo levantamento realizado no ano passado pelas ONGs Transparência Brasil e República.org, os Tribunais de Justiça estaduais pagaram aos magistrados, em média, um salário bruto mensal de R$ 99 mil. Os valores mais altos foram registrados no Piauí, com uma média de R$ 140,8 mil, e em São Paulo, com R$ 140,1 mil. Esses números alimentam o debate público sobre a justiça salarial e a necessidade de equilíbrio entre a valorização da carreira e a responsabilidade fiscal.
Fonte: gazetadopovo.com.br


















