No marco do 50º aniversário do golpe militar que instaurou a ditadura na Argentina, o governo de Javier Milei divulgou um vídeo que reacende o debate sobre o período autoritário. A produção, veiculada nas redes sociais, apresenta uma perspectiva crítica aos opositores do regime e ao movimento kirchnerista, gerando ampla discussão e reações diversas em todo o país.
A iniciativa do governo ocorre em um dia de profunda significância para a Argentina, o 24 de março, data em que se celebra o Dia da Memória. Tradicionalmente, este dia é marcado por homenagens às vítimas e pela reafirmação do compromisso com os direitos humanos, contrastando com a abordagem do material divulgado pela gestão atual.
A relativização da memória: o vídeo oficial do governo
O governo Milei tem adotado uma postura que, segundo críticos, busca relativizar os crimes cometidos durante a ditadura militar argentina. Nesta terça-feira, a administração publicou um vídeo de 1 hora e 14 minutos de duração em suas plataformas digitais, que inclui duas entrevistas centrais.
O material se insere em um padrão observado nos dias 24 de março desde o início do atual governo, onde são divulgados conteúdos que questionam a narrativa estabelecida sobre o regime militar. Essa abordagem tem sido um ponto de atrito constante com organizações de direitos humanos e setores da sociedade civil.
A voz de Miriam Fernández: uma perspectiva singular
A entrevista mais extensa e proeminente do vídeo foi gravada na Casa Rosada, sede do governo argentino, e apresenta o depoimento de Miriam Fernández. Ela é identificada como uma das centenas de crianças cujos pais biológicos foram vítimas de morte em centros clandestinos de prisão e tortura durante a ditadura.
Fernández foi adotada clandestinamente na infância por uma família com laços militares, composta por um ex-policial e sua esposa. No vídeo, ela defende seus pais adotivos, afirmando: “Não podem te obrigar a dizer que são seus pais adotivos depois de 40 anos. Eles são meus pais. Um pai não é aquele que te traz ao mundo, mas sim aquele que te cria.”
Ela também expressa o desejo de “deixar o passado em paz”, argumentando que “ninguém vai trazer de volta minha família biológica, nem a dor que vivi como membro de uma família militar”. Fernández relata ter sofrido preconceito após o fim da ditadura por sua associação com uma família que apoiou e trabalhou para o regime autoritário.
Conflito de narrativas: Avós da Praça de Maio e a política
No vídeo, Miriam Fernández também dirige críticas à Associação Avós da Praça de Maio, uma organização renomada por sua busca incansável por netos biológicos de desaparecidos que foram adotados ilegalmente por apoiadores do regime. A associação, que tem proximidade com o governo Kirchner, é acusada por Fernández de “misturar política” em suas ações, apesar de reconhecer seu “trabalho bonito”.
Fernández alega ter sido compelida a realizar um teste de DNA para determinar sua identidade biológica. Seus pais adotivos foram condenados à prisão: o pai por retenção e ocultação de menor de idade, e a mãe como coautora. O pai teve sua pena agravada por outros crimes de lesa-humanidade, conforme noticiado pelo jornal Clarín.
Memória e mobilização: as marchas pelo ‘Nunca Mais’
Em contraste com a narrativa governamental, dezenas de milhares de pessoas se reuniram em Buenos Aires para uma grande marcha em memória dos 50 anos do golpe de Estado. A mobilização, que se estendeu da Praça de Maio à Avenida 9 de Julho, foi marcada pelo lema “Nunca Mais”, um grito que ressoa através de gerações de argentinos.
Organizações de direitos humanos, sindicatos e diversas entidades sociais convocaram manifestações em todo o país, com participantes carregando fotos dos desaparecidos. Essas mobilizações anuais reafirmam a importância da memória e da justiça para as vítimas da ditadura argentina, um período que deixou um saldo estimado de mais de 30 mil opositores mortos e milhares de torturados em centros clandestinos como a ESMA, entre 1976 e 1983.
Fonte: g1.globo.com



















