A recente escalada de tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã, marcada por ataques e retaliações, transformou a rotina de milhares de pessoas no Oriente Médio, incluindo a de muitos brasileiros. Desde o último sábado, quando a ofensiva se intensificou, relatos de medo, cancelamentos de voos e comunicação instável emergem de cidades como Dubai e Teerã. Enquanto as potências ocidentais justificam suas ações na tentativa de desmantelar o programa nuclear iraniano, o Irã mantém que sua pesquisa atômica tem fins estritamente pacíficos, a população local e estrangeira vive sob a sombra da incerteza e da iminência de novos conflitos.
Neste cenário volátil, cidadãos brasileiros compartilham suas experiências, descrevendo uma atmosfera de apreensão, mas também de resiliência. Embora muitos afirmem estar em segurança, a pergunta sobre quando poderão retornar às suas vidas normais ou simplesmente embarcar de volta para casa permanece sem resposta.
O Som da Guerra e o Medo à Flor da Pele
Para aqueles próximos às zonas de conflito, a tensão não é abstrata, mas uma realidade sonora e tátil. O médico <b>Abdel Latif</b>, que reside em Valinhos (SP) e tem família na Cisjordânia, descreve a proximidade perigosa dos eventos: “Minha família mora numa aldeia perto da cidade de Belém, na fronteira entre Cisjordânia e Israel. Os mísseis que chegam a Israel passam em cima da casa da minha família”, explica, contextualizando o pavor de parentes que vivem sob o sobrevoo de projéteis.
Em Teerã, capital do Irã, o tricampeão mundial de jiu-jítsu <b>William Salvino</b> sentiu diretamente o impacto das explosões. “Quando ouvi o primeiro bombardeio, chegou até a estremecer o prédio que eu estava, de tão forte que foi. Levantei meio atordoado, sem saber onde estava ainda. Muitas pessoas correndo com a mão na cabeça”, relatou o atleta, que estava na cidade para treinar a seleção local. Já em Dubai, a empresária goiana <b>Nayara Araújo</b> viveu momentos de desespero durante a madrugada dos ataques. “Naquele momento de desespero de madrugada, quando a gente começou a ouvir as primeiras explosões, minhas pernas paralisaram, eu tentava mandar mensagem para o meu irmão falando: ‘Cuida do meu filho’. Só conseguia pensar nele”, desabafou, refletindo a dimensão pessoal do medo.
Aeroportos Fechados e Planos de Viagem Interrompidos
A resposta imediata à escalada militar incluiu o fechamento do espaço aéreo em diversas regiões, impactando diretamente o trânsito de pessoas e mercadorias. O advogado <b>Leno Gomes</b>, que liderava um grupo de cerca de 30 amazonenses do movimento Legendários, viu seus planos de retorno de Dubai serem abruptamente cancelados. “Eles fecharam o espaço aéreo, fecharam todas as vias de acesso a outros lugares, ou seja, nós não podemos sair”, relatou ele pelas redes sociais, embora enfatizasse que o grupo estava seguro.
Situação semelhante vivenciou o engenheiro civil <b>Iago Menezes</b>, parte de um grupo de 36 sergipanos hospedado em um hotel em Dubai com abrigo subterrâneo. Ele confirmou ao g1 que os dias iniciais após os ataques foram tensos, mas destacou a orientação recebida do governo dos Emirados Árabes e da Embaixada do Brasil. O diretor-presidente da Fundação Municipal de Esportes (Funesp) de Campo Grande, <b>Sandro Benites</b>, também teve seu voo de volta ao Brasil cancelado e permanece em Dubai, onde estava de férias. Ele mencionou “estrondos” ouvidos na cidade e a proliferação de notícias e desinformação, dificultando a compreensão do que de fato acontecia.
Da Tensão nos Céus à Calmaria Relativa nos Cruzeiros
A influenciadora digital <b>Ana Lorenzetti</b>, acompanhada do agente de viagens <b>Carlos Volpe</b> e de um grupo de 17 turistas, estava a bordo de um cruzeiro que partiria de Dubai com destino a outras cidades dos Emirados Árabes, Catar e Bahrein. No sábado do embarque, receberam alertas de mísseis e drones. “O momento mais tenso foi na noite do sábado, quando o governo mandou alertas, o que deu medo. Alertas no nosso celular, pedindo para ficar em segurança por causa dos alertas de mísseis”, conta Ana, embora ressalve que, no dia seguinte, a situação começou a se normalizar a bordo.
Enquanto alguns se adaptam a uma nova normalidade temporária, a vigilância permanece alta. O meio-campista alagoano <b>Élton Arábia</b>, ídolo no Oriente Médio, gravou um vídeo comentando a persistente tensão. “Estamos naquela tensão ainda. Hoje, interceptaram um míssil aqui perto […] Estou começando a ficar preocupado. Eles falam que está sob controle, mas ainda estão tendo muitos ataques. Situação complicada. Fecharam o aeroporto, ninguém sai e ninguém entra”, declarou o atleta, resumindo a sensação de um controle frágil diante de uma ameaça constante.
A Angústia pela Normalização e o Olhar para o Futuro
As histórias dos brasileiros no Oriente Médio são um mosaico de experiências diversas, mas todas conectadas pela mesma linha de incerteza. Embora se declarem seguros nos locais onde estão, a angústia sobre o futuro e a normalização da situação persiste. A expectativa de quando poderão retomar suas vidas, seja retornando ao Brasil ou simplesmente circulando livremente na região, é um tema comum que permeia todos os relatos.
Diante de um cenário geopolítico complexo e em constante mudança, a única certeza para muitos é a resiliência e a esperança de que os canais diplomáticos prevaleçam, permitindo que a paz e a estabilidade retornem à região, e que os brasileiros possam, finalmente, deixar para trás o medo e a interrupção de seus planos.
Fonte: https://g1.globo.com


















