A Justiça da Paraíba proferiu uma decisão definitiva sobre o trágico incidente que resultou na morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, após ele ter invadido o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, popularmente conhecido como "Bica", em João Pessoa, no ano passado. A 1ª Vara Regional de Garantias determinou o arquivamento do inquérito que investigava as circunstâncias da morte, conforme revelado nesta quarta-feira (11) e acessado pelo g1.
Arquivamento da Investigação Judicial
A decisão de arquivamento foi proferida pela juíza Michelini Jatobá e acolheu a indicação do Ministério Público da Paraíba (MPPB). Segundo os autos, a investigação concluiu que Gerson de Melo entrou voluntariamente no espaço destinado ao felino, desconsiderando os alertas de guardas e de outras pessoas presentes no local. A análise judicial não identificou a prática de crimes por terceiros ou por agentes públicos relacionados ao ocorrido, fundamentando a ausência de elementos para prosseguir com a ação penal. Foi detalhado que o jovem utilizou uma árvore como apoio, após escalar as barreiras de proteção do recinto, para efetivar sua entrada.
Diligências e Conclusões Periciais
A investigação, conduzida pela 2ª Delegacia Distrital de João Pessoa, abrangeu uma série de diligências para esclarecer os fatos. Foram colhidos depoimentos de guardas municipais que presenciaram o incidente, funcionários do parque, familiares da vítima e uma conselheira tutelar que acompanhava Gerson. Além disso, foram realizados laudos periciais cruciais, incluindo o exame cadavérico do jovem e a perícia no local do ataque, fornecendo subsídios técnicos fundamentais para a conclusão do inquérito.
Um relatório técnico do Ibama, citado na decisão da juíza, atestou que o zoológico opera em conformidade com as normas de segurança exigidas para suas instalações. O documento destacou que o recinto da leoa possuía muros de aproximadamente 8 metros de altura e telas inclinadas, projetadas especificamente para impedir invasões, reforçando que a estrutura do parque atendia aos padrões de segurança.
O Trágico Incidente no Parque Arruda Câmara
O ataque fatal ocorreu em um domingo, dia 30 de novembro do ano passado, quando Gerson de Melo adentrou o recinto da leoa. Imagens que circularam nas redes sociais à época documentaram o momento em que o jovem escalou uma estrutura lateral do espaço e, em seguida, utilizou uma árvore para transpor as barreiras e entrar na área do animal, sendo prontamente atacado e morrendo em decorrência dos ferimentos. Naquele momento, o Parque Arruda Câmara estava aberto e recebia visitantes.
A Prefeitura de João Pessoa, em nota, confirmou a dinâmica da invasão, detalhando que Gerson escalou rapidamente uma parede de mais de 6 metros, superou as grades de segurança e utilizou uma árvore como apoio para acessar o recinto. A prefeitura também expressou solidariedade à família da vítima e reiterou que o espaço seguia rigorosas normas técnicas e de segurança. As autoridades, incluindo a Polícia Militar e o Instituto de Polícia Científica (IPC) da Paraíba, foram acionadas de imediato, e o zoológico foi fechado para visitação após o ocorrido, permanecendo sem previsão de reabertura por um período.
O Histórico de Vulnerabilidade de Gerson
O caso de Gerson de Melo Machado também trouxe à tona seu complexo histórico de vulnerabilidade social e de saúde mental. Conhecido nas ruas de João Pessoa, ele havia sido detido em ocasiões anteriores, como em 24 de novembro do mesmo ano, quando foi preso duas vezes em menos de uma hora por danificar caixas eletrônicos e arremessar uma pedra contra uma viatura policial.
Verônica Oliveira, conselheira tutelar que acompanhava Gerson, revelou detalhes de sua vida. A mãe do jovem sofria de esquizofrenia grave, o que levou à retirada de Gerson e seus quatro irmãos do poder familiar pela Justiça. Enquanto os irmãos foram adotados, Gerson, que já manifestava sintomas de transtornos psiquiátricos, não encontrou uma família adotiva e permaneceu sob a responsabilidade do Conselho Tutelar até atingir a maioridade. A conselheira destacou a ausência de uma rede familiar extensa que pudesse ampará-lo.
A ausência de albergues adequados na cidade foi apontada como um fator que contribuiu para a precarização da vida do rapaz. Conforme relatado pela conselheira, Gerson, ao completar 18 anos, "foi entregue à própria sorte", saindo do acolhimento institucional para, posteriormente, ingressar no sistema prisional. O diagnóstico formal de esquizofrenia só foi emitido após sua entrada no sistema socioeducativo, um reconhecimento que, para muitos, chegou tardiamente diante de um histórico de sofrimento e desamparo.
Conclusão e Reflexões
O arquivamento do inquérito pela Justiça da Paraíba encerra a apuração legal sobre a morte de Gerson de Melo Machado, confirmando que o trágico evento foi resultado de uma ação voluntária do jovem, sem a caracterização de falha de terceiros ou das estruturas de segurança do zoológico. Contudo, o caso ressalta não apenas a conformidade das instalações do Parque Arruda Câmara, mas também as profundas questões sociais e de saúde mental que permearam a vida da vítima, deixando um legado de questionamentos sobre o suporte e a rede de proteção para indivíduos em situação de extrema vulnerabilidade.
Fonte: https://g1.globo.com

















