Postagens amplamente compartilhadas nas redes sociais têm afirmado que o líder norte-coreano Kim Jong-un teria recentemente declarado manter um 'botão nuclear' em sua mesa, como resposta aos exercícios militares conjuntos realizados pelos Estados Unidos e pela Coreia do Sul. No entanto, uma verificação rigorosa revela que essa informação é completamente falsa. A declaração atribuída a Kim Jong-un, embora autêntica, remonta a janeiro de 2018 e está sendo descontextualizada para criar uma narrativa enganosa sobre os acontecimentos atuais na Península Coreana.
A Circulação da Desinformação
Desde o último domingo, dia 9, plataformas como Facebook, X e Instagram foram inundadas com publicações que ressuscitavam a antiga fala de Kim Jong-un. Essas postagens viralizaram em um momento coincidente com a realização de manobras militares conjuntas entre Washington e Seul, sugerindo erroneamente que a declaração do líder norte-coreano seria uma reação direta e atual a esses exercícios. Uma das legendas circulantes em uma publicação no X afirmava: '🚨 BREAKING NEWS l 'O botão nuclear está sempre na minha mesa… e todo o território dos EUA está ao alcance do nosso ataque nuclear', diz Kim Jong-Un', reforçando a falsa impressão de que se tratava de uma notícia recente.
A Verdadeira Origem da Declaração de 2018
A frase sobre o 'botão nuclear' na mesa de Kim Jong-un, que ganhou notoriedade online, foi de fato proferida por ele, mas em um contexto significativamente diferente e há mais de seis anos. A declaração ocorreu em 1º de janeiro de 2018, durante seu tradicional pronunciamento de Ano-Novo. Naquela ocasião, Kim Jong-un afirmou categoricamente: 'Todo o território dos Estados Unidos está ao alcance de nossas armas nucleares, sempre tenho um botão nuclear na mesa do meu escritório. E isso é a realidade, não é uma ameaça'. Ele enfatizou, contudo, que o uso de tal armamento seria restrito a situações em que a segurança de seu país estivesse diretamente ameaçada.
Contexto Histórico: Tensões e Aproximação (2017-2018)
O período que antecedeu a declaração de 2018 foi marcado por uma escalada considerável nas tensões geopolíticas. Em 2017, a Coreia do Norte havia realizado uma série de seis testes nucleares, demonstrando avanços significativos em seu programa de armas. Em resposta, o Conselho de Segurança da ONU impôs três rodadas de sanções econômicas severas contra o país asiático. A retórica entre Kim Jong-un e o então presidente dos EUA, Donald Trump, era particularmente agressiva, com Trump ameaçando 'destruir totalmente' a Coreia do Norte em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, e Kim o chamando de 'mentalmente perturbado senil'.
Apesar da intensidade dos atritos, o ano de 2018 testemunhou um inesperado processo de degelo nas relações. Após meses de confrontos verbais, os líderes começaram a se aproximar, culminando em um encontro histórico em Singapura, em junho, onde debateram a desnuclearização da Península Coreana. Semanas depois, Trump fez história ao se tornar o primeiro presidente americano a pisar em solo norte-coreano, atravessando a fronteira na Zona Desmilitarizada para um simbólico aperto de mãos com Kim Jong-un, marcando um período de rara diplomacia.
As Reações Atuais da Coreia do Norte
As reações norte-coreanas aos recentes exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul foram, de fato, expressas, mas de maneiras distintas da declaração de 2018. Kim Yo-jong, irmã do líder Kim Jong-un e influente figura do regime, emitiu um comunicado através da agência de notícias oficial KCNA, alertando que os movimentos militares poderiam levar a 'consequências terríveis'. Essa declaração reflete a postura atual do país em relação às atividades militares percebidas como ameaçadoras em sua fronteira.
Complementando essa postura, o próprio Kim Jong-un foi fotografado assistindo a testes de mísseis de cruzeiro ao lado de sua filha, no último dia 11. Esses testes são consistentemente realizados pela Coreia do Norte como uma resposta padrão aos exercícios conjuntos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, evidenciando uma continuidade em sua estratégia de demonstração de força militar em momentos de intensificação das atividades defensivas de seus vizinhos.
Conclusão: A Importância da Verificação de Fatos
A ressurreição e descontextualização da declaração de Kim Jong-un de 2018 servem como um lembrete crítico da prevalência da desinformação nas redes sociais. É fundamental que o público busque fontes confiáveis e verifique a temporalidade e o contexto de qualquer notícia antes de compartilhá-la. Embora a Coreia do Norte continue a reagir às atividades militares na região, é essencial distinguir suas ações e declarações atuais de pronunciamentos históricos, a fim de compreender de forma precisa a dinâmica geopolítica complexa da Península Coreana.
Fonte: https://g1.globo.com


















