A Paraíba foi palco de uma operação da Polícia Federal que sacudiu a esfera política de Cabedelo, na Grande João Pessoa, culminando no afastamento do prefeito Edvaldo Neto (Avante). O epicentro da investigação é a suposta ligação entre a administração municipal e Flávio de Lima Monteiro, mais conhecido como Fatoka, apontado como o chefe da facção criminosa Comando Vermelho no estado. A complexidade do caso revela um intrincado esquema de infiltração do crime organizado no poder público, utilizando empresas terceirizadas para fins ilícitos.
A decisão que autorizou a operação, assinada pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), detalha como Fatoka, mesmo foragido e supostamente escondido no Rio de Janeiro, exercia comando direto sobre as atividades do grupo na Paraíba, com foco especial em Cabedelo. A relevância social dessa apuração é imensa, pois expõe a fragilidade das instituições diante da audácia do crime organizado e a ameaça direta à probidade administrativa e à segurança pública.
O elo perigoso entre o crime organizado e a gestão pública
A investigação aponta para um modelo de corrupção sofisticado, onde a Prefeitura de Cabedelo realizava contratações de serviços terceirizados, como limpeza, por meio de licitações supostamente fraudadas ou direcionadas. Empresas específicas, como a Lemon, seriam beneficiadas por desclassificações deliberadas de concorrentes, mesmo com propostas mais vantajosas, tudo com a aparência de legalidade conferida por decisões administrativas e pareceres jurídicos.
Uma vez firmados os contratos, essas empresas terceirizadas funcionariam como um canal para a contratação de pessoas indicadas pela facção criminosa, identificada como a “Tropa do Amigão”, um braço do Comando Vermelho na Paraíba. As indicações de Fatoka eram tão institucionalizadas que, internamente, eram identificadas pela sigla “FTK” em alguns documentos. A então secretária de Administração, Josenilda Batista dos Santos, é apontada como braço operacional interno da facção, recebendo as indicações e atuando para fraudar licitações.
O fluxo financeiro do esquema era perverso: os recursos públicos destinados ao pagamento dos postos de trabalho terceirizados retornariam, total ou parcialmente, ao núcleo político e à facção por meio de práticas como pagamento de propina, “folhas paralelas”, saques em espécie e outros métodos de lavagem de dinheiro. Pessoas de confiança de Fatoka teriam ocupado funções estratégicas na administração municipal, atuando como intermediários entre o crime e o poder público.
A trajetória criminosa de Fatoka: fugas e influência
A figura de Fatoka não é nova no cenário criminal paraibano. Seu primeiro registro de prisão data de 2012, quando já era apontado como líder de uma facção criminosa local, responsável por comandar rebeliões em presídios e ser o mandante de diversos homicídios violentos em João Pessoa. Ele permaneceu detido até 2018, quando protagonizou uma fuga espetacular da Penitenciária de Segurança Máxima Doutor Romeu Gonçalves de Abrantes (PB1), junto com outros 91 presos, após o uso de explosivos.
Meses após a fuga, Fatoka foi recapturado em Alagoas, mas sua liberdade foi novamente concedida pela Justiça, sob medidas cautelares e uso de tornozeleira eletrônica. Contudo, a Polícia Civil informa que ele rompeu o equipamento e fugiu para o Rio de Janeiro, de onde, segundo as investigações, continuava a emitir ordens que abrangem desde o controle territorial armado em comunidades até a influência direta sobre a administração pública de Cabedelo. Além disso, ele é investigado por aliciamento violento de eleitores em Cabedelo durante as Eleições de 2024, reforçando sua persistente ligação com o poder público local. Atualmente, Fatoka figura na lista dos criminosos mais perigosos e foragidos do Ministério da Justiça.
As peças-chave do esquema e as defesas em xeque
Além do prefeito afastado Edvaldo Neto, a operação mirou outras 12 pessoas. O ex-prefeito Vitor Hugo é apontado como articulador inicial do esquema, responsável por firmar o pacto com a facção e estruturar o modelo. Em sua defesa, Vitor Hugo negou conhecer Ariadna Thalia, conhecida como ‘Arroto de Urubu’, uma integrante da organização que teria fornecido depoimentos cruciais, e alegou ser vítima de perseguição política.
Um dos pontos mais delicados da investigação é a menção à sogra de Edvaldo Neto, Cynthia Cordeiro, que também ocupava uma secretaria na administração municipal e foi identificada como advogada de Fatoka no documento judicial. Em nota, a defesa da mulher afirmou atuar com retidão e lisura, confiando na Justiça. A empresa Lemon, citada nas investigações, também se manifestou, garantindo pautar suas atividades na ética e na colaboração com as autoridades. Rougger Guerra, secretário da Prefeitura de João Pessoa, também alvo da ação, negou qualquer envolvimento e entregou o cargo na capital.
A defesa de Edvaldo Neto, por sua vez, informou que o prefeito jamais manteve vínculo com facção criminosa, classificando a imputação como inverídica e incompatível com sua trajetória. Ele reforçou que a medida de afastamento é provisória e não implica juízo definitivo de culpa, afirmando ter cooperado com as instituições de segurança para coibir ações criminosas na gestão.
Implicações e o futuro da investigação em Cabedelo
A operação da Polícia Federal em Cabedelo lança luz sobre a grave ameaça que a infiltração de organizações criminosas representa para a governança e a integridade dos recursos públicos. A complexidade do esquema, que envolve desde fraudes em licitações até a lavagem de dinheiro e a indicação de pessoal por facções, exige uma resposta robusta das autoridades e uma vigilância constante da sociedade civil. Os desdobramentos dessa investigação serão cruciais para a restauração da confiança na administração pública e para o combate efetivo ao crime organizado na Paraíba.
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