A política brasileira testemunha mais um capítulo de intensa disputa entre os poderes, com a deputada federal Luciene Cavalcante (PSOL-SP) levando a controvérsia da derrubada do veto presidencial à lei da dosimetria para o âmbito internacional. A parlamentar acionou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), em uma tentativa de barrar a promulgação de um texto que, segundo ela, representa um grave retrocesso para os direitos humanos no país.
A iniciativa do PSOL surge em um momento de alta tensão no Congresso Nacional, logo após a derrubada do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a um projeto de lei que altera a dosimetria das penas. A decisão legislativa, que ocorreu na última quinta-feira, 30 de novembro, é vista por críticos como um enfraquecimento da legislação penal e um potencial benefício para condenados por crimes graves, incluindo figuras políticas de destaque e envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
Ação Internacional e a Defesa dos Direitos Humanos
A denúncia apresentada à CIDH não é um ato isolado de Luciene Cavalcante. Ela conta com o apoio e a assinatura do deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL-SP) e do vereador paulistano Celso Giannazi (PSOL), todos integrantes do coletivo “Educação em 1º Lugar”. A ação foi anunciada pela deputada em suas redes sociais, onde ela reiterou a gravidade da situação.
Para os parlamentares do PSOL, a redução de penas proposta pela lei da dosimetria representa “um retrocesso e um ataque direto aos direitos humanos, à proteção judicial efetiva e à defesa a nossa democracia”. O embasamento legal para a denúncia é a Convenção Americana Sobre Direitos Humanos, mais conhecida como Pacto de São José da Costa Rica, um tratado internacional que o Brasil é signatário e que garante direitos civis e políticos.
O objetivo primordial dessa movimentação internacional é impedir que o presidente Lula promulgue o texto da lei da dosimetria. Caso Lula não o faça no prazo de 48 horas, a prerrogativa legal passa para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que estaria autorizado a realizar a promulgação. A intervenção da OEA busca criar um obstáculo jurídico e político a essa sequência de eventos.
A Conturbada Derrubada do Veto no Congresso
A sessão conjunta do Congresso Nacional que derrubou o veto presidencial foi marcada por intensos debates e representou uma significativa derrota para o governo Lula. A votação, com 367 votos pela derrubada do veto contra 168 pela sua manutenção, evidenciou a fragilidade da base governista em temas cruciais e a força da oposição.
Este revés ocorreu em um momento delicado para o Planalto, vindo logo após a rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). A sequência de derrotas legislativas e políticas sinaliza um cenário de crescente dificuldade para o governo em emplacar suas pautas e indicações.
A nova dosimetria, conforme apontado por analistas e críticos, teria o potencial de beneficiar figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro e indivíduos presos em decorrência dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Essa percepção adiciona uma camada de polarização e urgência à discussão, transformando a questão da dosimetria em um ponto central da disputa política nacional.
O Debate sobre o “Fatiamento” e Implicações Legais
Um dos pontos mais controversos da derrubada do veto envolveu a decisão unilateral do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, de excluir da análise um trecho específico do projeto de lei. Esse trecho, considerado “perigoso” por alguns, flexibilizava a progressão de regime em casos de crimes hediondos em geral, milícias privadas e feminicídio.
A exclusão desse segmento gerou forte reação, especialmente porque a flexibilização contrariava o endurecimento previsto pela inovação na lei de combate ao crime organizado. O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), contestou veementemente a manobra, argumentando que “é impossível fazer o fatiamento de algo porque não é mais a fase de elaboração do processo legislativo. É a fase do Congresso Nacional concordar ou não com o veto do presidente da República”.
A polêmica sobre o “fatiamento” do veto levanta questões importantes sobre os limites regimentais e a interpretação das normas legislativas, podendo ser um dos focos de futuras contestações jurídicas. A decisão de Alcolumbre permitiu que o veto fosse derrubado apenas parcialmente, evitando que o trecho mais sensível entrasse em pauta, mas não sem gerar um racha na interpretação do processo legislativo.
Os Próximos Passos e a Expectativa no STF
Diante da complexidade e das implicações da derrubada do veto, a expectativa é que o debate se desloque para o Poder Judiciário. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, já antecipou, em entrevista ao SBT News, que considera “certa” uma ação no STF por parte dos governistas para tentar restabelecer o veto presidencial.
O decano do STF sinalizou que a Corte não deverá se furtar a analisar a questão, especialmente se houver argumentos sólidos sobre vícios no processo legislativo ou inconstitucionalidades. O foco de uma eventual ação no Supremo, conforme já adiantado pelas críticas à sessão conjunta, deve ser a exclusão do trecho que poderia entrar em conflito com a lei antifacção, bem como a legalidade do “fatiamento” do veto.
Este cenário projeta uma nova batalha jurídica e política, com o STF sendo novamente chamado a arbitrar conflitos entre o Legislativo e o Executivo. A decisão da OEA, embora não tenha poder de anular diretamente uma lei brasileira, adiciona pressão internacional e pode influenciar a percepção pública e as decisões internas, reforçando a narrativa de que a derrubada do veto representa uma ameaça aos direitos humanos e à segurança jurídica.
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Fonte: gazetadopovo.com.br



















