A cidade de Cabedelo, na Paraíba, conhecida por suas belezas naturais e potencial turístico, vive uma realidade alarmante: o município está sob o controle remoto de uma facção criminosa sediada a mais de 2 mil quilômetros de distância, no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Liderada por Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, a organização criminosa Comando Vermelho não apenas dita regras nas ruas, mas também se infiltrou em pontos estratégicos da administração municipal, transformando a gestão pública em um braço logístico e financeiro do crime.
As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público da Paraíba revelam um cenário de colapso institucional, onde a sociedade se vê refém de um poder paralelo. Moradores vivem sob constante vigilância e medo, enquanto a ausência de serviços básicos como coleta de lixo e asfalto contrasta com o luxo e a organização do crime à distância.
O “Home Office” do Crime e a Vigilância Clandestina
A estratégia da facção para manter o controle sobre Cabedelo é sofisticada e abrangente. De seu quartel-general no Rio de Janeiro, Fatoka e seus comparsas monitoram a rotina da cidade paraibana 24 horas por dia, utilizando uma rede de câmeras clandestinas, apelidadas de “besouros”. Áudios interceptados pelas autoridades mostram a dimensão desse esquema: “Tem 30 câmeras geral”, diz um integrante, enquanto outro exibe o monitoramento em vídeo, vangloriando-se da “visão de cria” que lhe proporciona “só paz e tranquilidade”.
Para a polícia, essa estrutura funciona como um verdadeiro “home office do crime organizado”. As câmeras são habilmente disfarçadas em postes, árvores e até dentro de canos metálicos pintados, misturando-se à fiação urbana para evitar detecção. O tenente-coronel Luiz Antônio, comandante de batalhão da PM-PB, explica a dificuldade em localizá-las. Essa vigilância permite que a facção reaja rapidamente a qualquer ameaça ou movimento de rivais, com ordens diretas como “Aço nele, demorou” em caso de detecção de opositores.
A Infiltração na Gestão Pública e o Desvio de Recursos
A ambição da facção criminosa não se limitou às ruas. As investigações apontam para uma profunda infiltração na Prefeitura de Cabedelo, transformando gabinetes em centros de operação para desvio de dinheiro público. O esquema envolveria o loteamento de cargos, a prática de “rachadinhas” e o uso da empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda. como fachada para atividades ilícitas. O prejuízo estimado aos cofres públicos é de R$ 270 milhões.
Através da Lemon, a facção garantia a contratação de parentes e amigos na prefeitura e na Câmara de Vereadores, além de manter “funcionários fantasmas” cujos salários eram revertidos para o crime. Ariadna Cordeiro Barbosa, gerente financeira da facção, confirmou em depoimento que as indicações de Fatoka eram prontamente atendidas. Em troca, a organização oferecia “segurança” a gestores em áreas conflagradas e vetava a entrada de opositores políticos, garantindo seu domínio. Quatro ex-prefeitos de Cabedelo – Leto Viana, André Coutinho, Edvaldo Neto e Vitor Hugo – foram investigados por suposto envolvimento no esquema, com diferentes desdobramentos em seus mandatos. As defesas de André Coutinho, Edvaldo Neto e Vitor Hugo negam as acusações.
O Medo nas Ruas e a Rotina dos Moradores
A presença ostensiva da facção se reflete diretamente na vida dos moradores de Cabedelo. Pichações com a abreviatura do nome de Fatoka e do Comando Vermelho marcam o domínio territorial, enquanto vídeos chocantes mostram grupos de homens armados efetuando disparos para o alto em áreas residenciais. O medo é palpável, e a população teme gravar entrevistas ou falar abertamente sobre o assunto.
Um morador, após ter o carro de sua esposa atingido por tiros em setembro de 2024, fez um apelo desesperado, pedindo cuidado com os inocentes. A resposta de Fatoka, em áudio, revelou a frieza da organização: “Os caras sabem que a gente tá numa guerra, um carro igual ao dos ‘alemão’, aí, fica andando pra lá e pra cá, uma hora daquela. Deixar de ser otário”. A influência da facção chega a interferir na escolha de líderes comunitários, com criminosos monitorando reuniões e emitindo avisos intimidadores aos moradores, justificando sua presença pela “guerra” em andamento.
A Ascensão de Fatoka e a Expansão do Comando Vermelho
A figura central dessa trama é Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka. Aos 43 anos, ele iniciou sua trajetória criminosa na facção Nova Okaida, na Paraíba, antes de fundar a Tropa do Amigão, um dos braços do Comando Vermelho no Nordeste. Com 13 mandados de prisão por tráfico, homicídios e organização criminosa, Fatoka é um fugitivo notório. Ele escapou de um presídio de segurança máxima em setembro de 2018, em uma fuga em massa que envolveu explosivos, e, após ser recapturado, rompeu uma tornozeleira eletrônica em 2022, fugindo para o Rio de Janeiro.
Mesmo à distância, Fatoka continua ditando ordens e planejando a expansão territorial. Áudios revelam planos para o bairro do Bessa, em João Pessoa, utilizando o termo “ponteamento” – mapear território e eliminar rivais – para operar com “tranquilidade e segurança”, conforme o procurador-geral de Justiça do MP-PB, Leonardo Quintans. No Complexo do Alemão, Fatoka considera a favela o local mais seguro para foragidos, inclusive para quem usa tornozeleira, uma inversão de valores que, segundo o secretário Victor dos Santos, reflete a ausência histórica do Estado nesses territórios.
A Resposta do Estado e os Desafios da Segurança
Diante desse cenário complexo, a Polícia Militar da Paraíba intensifica as operações para localizar e desativar as câmeras clandestinas. No entanto, o desafio é grande, como relatou o jornalista Maurício Ferraz, que acompanhou uma dessas ações, ciente de que “em algum lugar, algum criminoso tá vendo essa movimentação nossa aqui”. A Polícia Federal e o Ministério Público seguem com as investigações, buscando desarticular a rede criminosa e a corrupção na prefeitura.
O procurador do município, Leonardo Nóbrega, informou que o contrato com a empresa Lemon será anulado, mas com modulação para não interromper serviços essenciais. A empresa, por sua vez, declarou empregar mais de 700 pessoas em Cabedelo, exigir certidões criminais negativas desde 2024 e colaborar com as investigações. A situação em Cabedelo é um espelho de um problema maior, com o aumento do número de foragidos de outros estados presos no Rio de Janeiro, que subiu de 677 em 2022 para 1.105 em 2025, muitos deles cumprindo tarefas para a cúpula do Comando Vermelho. A defesa de Fatoka afirma não haver provas que o vinculem aos fatos narrados, mas a polícia o mantém como foragido no Complexo do Alemão, de onde, segundo ele, “só cai uma folha se eu disser que sim”.
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