Enquanto as praias de Cabedelo, no litoral da Paraíba, atraem turistas com sua beleza natural, uma realidade sombria e complexa se desenrola nos bastidores. Moradores da cidade convivem com um poder paralelo que, segundo investigações aprofundadas, é orquestrado a mais de dois mil quilômetros de distância: diretamente do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Áudios, vídeos e relatórios policiais revelam como integrantes do Comando Vermelho transformaram comunidades cariocas em um verdadeiro “home office do crime”, de onde monitoram em tempo real a rotina paraibana, controlam territórios, intimidam a população e até influenciam a política local.
A situação expõe a vulnerabilidade de cidades turísticas diante da expansão do crime organizado, que utiliza tecnologia e estratégias sofisticadas para manter seu domínio. O contraste entre a imagem paradisíaca de Cabedelo e a vigilância constante imposta por criminosos gera um clima de medo e silêncio entre os habitantes, que se veem reféns de uma estrutura criminosa com tentáculos em diversas esferas.
O monitoramento clandestino e a vigilância constante da facção
As investigações apontam que o principal articulador dessa operação é Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoca, apontado como líder da facção na região. Mesmo foragido no Rio de Janeiro, Fatoca possui 13 mandados de prisão por crimes como tráfico, homicídios e organização criminosa, e continua a comandar as ações em Cabedelo. Um dos áudios interceptados pela polícia é revelador: um integrante da facção se gaba de um sistema clandestino de monitoramento, afirmando: “Tem 30 câmeras geral”.
Essas câmeras, estrategicamente escondidas em postes, árvores e até em estruturas camufladas com fita isolante, transmitem imagens em tempo real para os traficantes no Complexo do Alemão. A polícia detalha que o sistema permite acompanhar cada movimento de policiais, agentes públicos e rivais, garantindo aos criminosos uma vantagem tática e um controle quase absoluto sobre as áreas dominadas. Essa vigilância 24 horas por dia cria um ambiente de constante opressão para os moradores.
Intimidação e controle territorial em Cabedelo
Nos bairros sob o domínio da facção, os relatos dos moradores são de abandono e medo permanente. Vídeos obtidos durante as investigações mostram homens armados circulando livremente pelas ruas e efetuando disparos para o alto, em uma clara demonstração de força e intimidação. A polícia explica que os criminosos utilizam o “ponteamento”, uma tática para mapear territórios e eliminar rivais, consolidando seu controle.
Em uma gravação, um morador, cujo carro da mulher foi atingido por tiros, faz um apelo desesperado para que inocentes sejam poupados. O pedido chegou até Fatoca, que respondeu friamente em áudio: “A gente está numa guerra”. A brutalidade da facção não se limita à violência física; o grupo também monitorava reuniões comunitárias e interferia diretamente na escolha de lideranças locais, como evidenciado em uma gravação onde criminosos acompanham uma votação pelo celular e fazem ameaças veladas. Integrantes da facção foram registrados afirmando: “Estamos presentes toda noite, toda madrugada”, reforçando a onipresença do crime.
A teia da infiltração política e financeira da facção
As investigações desvendaram um complexo esquema de infiltração do crime organizado na administração municipal de Cabedelo. Promotores apontam que a facção utilizava cargos públicos, contratos terceirizados e esquemas de “rachadinha” para financiar suas atividades criminosas. Os últimos quatro prefeitos da cidade estão sob investigação por suspeita de ligação com essas organizações.
De acordo com o Ministério Público, uma empresa terceirizada contratada pela prefeitura teria sido usada para empregar indicados da facção. A estimativa é de que o prejuízo aos cofres públicos tenha alcançado a impressionante cifra de R$ 270 milhões. Uma mulher apontada como gerente financeira da organização revelou em depoimento que funcionários ligados ao grupo eram identificados internamente pela sigla “FTK”, uma referência a Fatoca. Promotores afirmam que mais de 100 pessoas indicadas pela facção teriam ocupado cargos tanto na prefeitura quanto na Câmara Municipal, evidenciando a profunda ramificação do crime na estrutura de poder local.
Rio de Janeiro como refúgio e base de operações
Autoridades de segurança pública alertam que o Complexo do Alemão e outras comunidades dominadas pelo tráfico no Rio de Janeiro funcionam como abrigos seguros para criminosos foragidos de diversos estados. Em um áudio, Fatoca chega a afirmar que a favela é o “canto mais seguro” para criminosos, inclusive para aqueles que deveriam estar sendo monitorados por tornozeleira eletrônica.
Dados da polícia fluminense corroboram essa preocupação, mostrando um aumento de 63% no número de foragidos de outros estados presos no Rio nos últimos quatro anos, com mais de 1,1 mil prisões desse tipo apenas em 2025. Investigadores também revelam que criminosos oriundos da Paraíba são enviados ao Rio para atuar em confrontos armados e reforçar áreas controladas pela facção, consolidando uma perigosa ponte interestadual do crime.
Os outros lados e as defesas
Diante das graves acusações, as partes envolvidas apresentaram suas defesas. A empresa Lemon, citada nas investigações, informou que emprega mais de 700 pessoas em Cabedelo e que exige certidões criminais negativas desde 2024. A empresa afirmou que as denúncias de folha paralela atingem centenas de trabalhadores e que está colaborando integralmente com as investigações.
A defesa de Fatoca, por sua vez, sustenta que não há elementos probatórios que o vinculem aos fatos narrados. Contudo, a polícia mantém que ele permanece foragido no Complexo do Alemão, monitorando Cabedelo, com uma de suas falas interceptadas reforçando seu controle: “Vou ser bem sincero pra tu: lá nas áreas, só cai uma folha se eu disser que sim”. As defesas dos ex-prefeitos Vitor Hugo, Edvaldo Neto e André Coutinho repudiaram qualquer tentativa de vinculação de seus nomes com organizações criminosas, afirmando que não há provas de participação, favorecimento ou conhecimento de práticas ilícitas. O ex-prefeito Leto Viana não respondeu aos contatos da reportagem.
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