A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como 'El Mencho', líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), gerou uma imediata onda de violência no México, repercutindo como um golpe significativo contra o crime organizado. A operação conjunta entre autoridades mexicanas e norte-americanas em Tapalpa, Jalisco, eliminou um dos traficantes mais procurados. Contudo, essa aparente vitória contra o crime pode paradoxalmente impulsionar facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), para uma posição de maior influência no cenário transnacional, conforme alerta o ex-policial e pesquisador Roberto Uchôa, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
A Fragmentação do CJNG e o Vácuo de Poder Criminal
A eliminação de El Mencho, ao invés de desmantelar completamente o CJNG, é vista como um catalisador para uma provável 'balcanização' da organização. A ausência de uma sucessão clara e estruturada deve deflagrar disputas internas entre os 'generais' do cartel, fragmentando-o em células menores ou, potencialmente, levando à sua absorção por rivais como o Cartel de Sinaloa. Essa instabilidade e a incerteza gerada em suas operações criarão um vácuo em mercados ilícitos cruciais, uma lacuna que outros grupos estarão prontos para preencher.
A Ascensão Estratégica do PCC: Profissionalismo e Resiliência
Nesse cenário de reconfiguração, o PCC desponta como um dos principais beneficiários. A facção brasileira, que já domina grande parte da rota da cocaína para a Europa, demonstra um nível de organização e profissionalismo que a distingue dos cartéis mexicanos. Uchôa destaca que o PCC se assemelha mais a uma estrutura empresarial, garantindo uma resiliência notável a operações focadas na eliminação de líderes simbólicos – o chamado combate 'kingpin'.
Estrutura Descentralizada e a 'Regulação da Violência'
Diferente da estrutura mais piramidal dos cartéis mexicanos, o PCC opera com uma liderança descentralizada, exemplificada pela 'Sintonia Final', um grupo colegiado que define os rumos da organização. Essa característica permite que o grupo continue operando e até se expanda, mesmo com suas principais lideranças presas há décadas, como Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Além disso, a violência empregada pelo PCC é estrategicamente 'utilitária', calculada para atingir objetivos específicos, contrastando com as exibições de força e confrontos diretos com o Estado vistos no México. Essa abordagem mais discreta e estratégica ajuda o PCC a evitar o risco de ser classificado como organização terrorista por potências estrangeiras, algo que as ações espetaculares do CJNG (como disparos em aeroportos) poderiam provocar, concedendo aos EUA maior poder de ação contra o México.
Expansão em Rotas de Drogas e Mineração Ilegal
A potencial fragilização do CJNG abre portas para o PCC em duas frentes de atuação cruciais, onde o cartel mexicano era proeminente. Primeiramente, o controle e a expansão das rotas de drogas sintéticas e cocaína destinadas à Europa, um mercado em que o PCC já possui forte presença. Em segundo lugar, a mineração ilegal de ouro e o comércio de mercúrio na América do Sul. O CJNG já estava envolvido em operações de mineração ilegal na Colômbia, Venezuela e Equador, e a instabilidade interna do grupo mexicano pode permitir que o PCC amplie sua atuação para essas lucrativas atividades ilícitas, incluindo a Amazônia.
Conforme Uchôa, na 'geopolítica criminal, não existe espaço vazio', e o PCC, com sua estabilidade percebida e acesso direto à origem da droga na América do Sul, posiciona-se como um 'fornecedor estável' capaz de preencher rapidamente qualquer lacuna deixada pela turbulência no CJNG.
Conclusão: Reconfiguração do Crime Organizado Global
A morte de 'El Mencho' é um evento de alto impacto, mas seus desdobramentos podem ir muito além das fronteiras mexicanas. Em vez de simplesmente enfraquecer o crime organizado global, a queda de um líder tão proeminente pode catalisar uma significativa reconfiguração de poder, beneficiando grupos mais estruturados e resilientes como o PCC. O cenário internacional do crime, portanto, não apenas testemunha a queda de um gigante, mas se prepara para uma complexa redistribuição de territórios, rotas e influência, com implicações diretas para a segurança na América do Sul e na Europa.
Fonte: https://g1.globo.com


















