Uma nova e perigosa fase de tensão se instalou na Ásia Central após o Paquistão realizar ataques aéreos contra a capital afegã, Cabul, e outras cidades, na madrugada da última sexta-feira. Essa ação militar culminou na declaração de 'guerra aberta' por parte de Islamabade contra o governo talibã do Afeganistão, elevando significativamente o risco de um confronto direto e prolongado entre os dois países vizinhos.
Analistas regionais preveem uma intensificação da campanha militar paquistanesa, enquanto o governo de Cabul, liderado pelo Talibã, poderá responder com táticas de guerrilha transfronteiriças e ataques a postos de fronteira. A situação destaca uma complexa dinâmica geopolítica e militar, com implicações profundas para a estabilidade da região.
Ataques Aéreos e Retaliação Imediata
A ofensiva paquistanesa incluiu bombardeios dirigidos a áreas estratégicas no Afeganistão, provocando uma condenação veemente por parte do Talibã. Em resposta aos ataques, o governo afegão prometeu uma 'resposta apropriada e proporcional', que se materializou em operações retaliatórias na quinta-feira, exacerbando ainda mais o ciclo de violência. Os bombardeios iniciais do Paquistão foram descritos como direcionados a acampamentos de militantes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) e do Estado Islâmico em território afegão, marcando uma escalada significativa na abordagem de Islamabade.
Raiz da Tensão: O Grupo Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP)
O cerne da disputa entre Paquistão e Afeganistão reside na questão do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), um grupo militante que atua contra o governo paquistanês. Autoridades de Islamabade sustentam que os militantes do TTP encontram refúgio no Afeganistão, utilizando o território vizinho como base para planejar e executar ataques dentro do Paquistão. Esta acusação, que tem sido categoricamente negada pelo governo afegão, é o principal catalisador das recentes ações militares paquistanesas e da subsequente declaração de 'guerra aberta'.
Divergência de Capacidades Militares
No que tange às capacidades militares, existe uma notável discrepância entre as duas partes. As forças armadas do Paquistão, com mais de 600.000 militares ativos, aproximadamente 6.000 veículos blindados de combate e mais de 400 aeronaves de combate (dados de 2025 do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos), representam uma potência militar substancial. O país também possui uma força aérea eficaz, equipada com caças modernos.
Em contrapartida, o Talibã, que governa o Afeganistão, dispõe de um efetivo militar significativamente menor, com cerca de 172.000 soldados, correspondendo a menos de um terço da força paquistanesa. Embora possuam pelo menos seis aeronaves e 23 helicópteros, o estado operacional desses ativos é incerto, e o grupo carece de uma força aérea eficaz para projeção de poder militar convencional.
Paquistão: Uma Potência Nuclear Estratégica
O Paquistão se destaca como uma potência nuclear, mantendo um programa atômico que se originou na década de 1950 com propósitos civis de geração de energia, mas que se expandiu para fins militares. Atualmente, a Comissão de Energia Atômica do Paquistão (PAEC) opera quatro usinas em Chashma e duas em Karachi, todas sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU.
O Ministério das Relações Exteriores paquistanês enfatiza que todas as suas instalações nucleares aderem rigorosamente às normas internacionais, com o país almejando gerar 40.000 MW de energia limpa até 2050. O governo paquistanês justifica o desenvolvimento de sua capacidade nuclear como uma medida de autodefesa, especialmente após a introdução de armas nucleares pela Índia na região, moldando a dinâmica estratégica do sul da Ásia.
O Retorno do Talibã ao Poder no Afeganistão
A ascensão do Talibã ao poder no Afeganistão em 2021 marcou um ponto de virada na história recente do país. O grupo capitalizou a retirada das tropas dos Estados Unidos, executando uma ofensiva relâmpago que o levou ao controle total do território duas décadas após sua expulsão inicial. Este evento restabeleceu um regime teocrático baseado na lei islâmica, a Sharia.
O Talibã emergiu em 1994 como um movimento de estudantes religiosos pashtuns, surgindo do vácuo de poder pós-guerra civil e soviética (1979-1989), com financiamento inicial de redes paquistanesas e árabes. Governou o Afeganistão pela primeira vez entre 1996 e 2001. Após o Acordo de Doha em fevereiro de 2020, que previa a saída das tropas americanas, o grupo intensificou seus ataques. Em maio de 2021, com a confirmação da retirada por parte do presidente Biden, o Talibã lançou uma ofensiva que culminou na captura de distritos e capitais provinciais, entrando em Cabul sem resistência após a fuga do então presidente Ashraf Ghani e proclamando o Emirado Islâmico. O colapso do exército afegão, com deserções em massa, permitiu ao Talibã assegurar o controle de mais de 65% do território em questão de semanas.
Perspectivas de um Conflito Regional
A declaração de 'guerra aberta' do Paquistão contra o governo do Talibã no Afeganistão estabelece um cenário volátil e imprevisível na Ásia. A complexidade da situação é acentuada pela disparidade militar entre um estado com capacidade nuclear e um regime que, embora consolidado, opera com uma estrutura militar e táticas diferentes. A incapacidade de resolver a questão do TTP através de canais diplomáticos empurra a região para a beira de um conflito que pode ter ramificações humanitárias e geopolíticas significativas, exigindo atenção internacional urgente para evitar uma escalada ainda maior e estabilizar a fronteira já conturbada entre os dois países.
Fonte: https://g1.globo.com

















