Jerusalém exige impostos de igrejas cristãs em negociações secretas

A Prefeitura de Jerusalém está em meio a “negociações secretas” com as principais denominações cristãs da cidade para cobrar milhões de dólares em impostos municipais sobre suas propriedades. O caso, que envolve a Igreja Católica, a Igreja Ortodoxa Grega e a Igreja Ortodoxa Armênia, tem gerado forte impacto diplomático, com a participação dos Estados Unidos e do Ministério das Relações Exteriores de Israel, e levanta questões sobre a soberania israelense sobre Jerusalém Oriental e a presença cristã na Terra Santa.

Tributação de Propriedades e Implicações Políticas

A plataforma israelense de jornalismo investigativo Shomrim revelou que a prefeitura de Jerusalém exige o pagamento de “centenas de milhões de shekels” em impostos municipais de propriedades pertencentes às igrejas. Historicamente, essas instituições gozam de isenção tributária com base em uma lei estabelecida durante o Mandato Britânico da Palestina (1922-1948), que beneficia entidades religiosas, educacionais e de saúde. No entanto, nos últimos anos, outras cidades israelenses como Tel Aviv, Nazaré e Ramla também iniciaram a cobrança, provocando reações das comunidades cristãs.

Um dos pontos mais sensíveis da disputa é que muitas das propriedades em questão estão localizadas em áreas de Jerusalém Oriental, conquistadas por Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967. O pagamento de imposto à Prefeitura de Jerusalém poderia ser interpretado como um reconhecimento da soberania israelense sobre essa parte da cidade, um status contestado internacionalmente. Atualmente, um inventário das propriedades está sendo realizado para definir quais imóveis serão taxados e se haverá cobrança retroativa.

Negociações Secretas e Envolvimento Internacional

As conversas entre a prefeitura e as igrejas estão sendo conduzidas sob os auspícios do Ministério das Relações Exteriores de Israel, dada a complexidade diplomática do tema. A Igreja Católica, por exemplo, contratou a Livingston Group, uma renomada empresa de lobby sediada em Washington, para representá-la. Documentos obtidos pela Shomrim indicam que foram agendadas reuniões com importantes políticos norte-americanos, incluindo o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, o presidente republicano da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, e o senador democrata Chris Van Hollen, além do embaixador de Israel nos Estados Unidos, Yechiel Leiter.

Esses encontros, organizados pela empresa de lobby, tiveram a cobrança dos impostos municipais como um dos principais tópicos. A participação de figuras políticas de alto escalão dos EUA sublinha a dimensão internacional e a sensibilidade do assunto, que transcende a esfera meramente fiscal e adentra o campo das relações diplomáticas e da geopolítica regional.

Reação das Igrejas e Crescente Preocupação

A postura da Prefeitura de Jerusalém tem sido duramente criticada pelos líderes cristãos. Em 1º de julho de 2024, representantes de diversas comunidades enviaram uma carta ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, descrevendo as medidas como um “ataque coordenado à presença cristã na Terra Santa”, conforme reportado por veículos como o Times of Israel. O cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, foi um dos signatários, expressando a preocupação de que as autoridades estariam tentando “expulsar a presença cristã da Terra Santa”.

A tensão não é nova. No ano passado, a prefeitura chegou a bloquear as contas do Patriarcado Ortodoxo Grego, uma medida que gerou condenação por parte do Ministério das Relações Exteriores da Jordânia. Em resposta à reportagem da Shomrim, a Prefeitura de Jerusalém afirmou que mantém um “diálogo com os representantes das igrejas da cidade para resolver definitivamente a questão das dívidas relacionadas ao imposto sobre propriedades que não são utilizadas como locais de culto”. A prefeitura também busca a documentação necessária para instituições que têm direito a descontos ou isenções.

Escalada da Violência e Assédio Contra Cristãos

Além da questão tributária, as reuniões nos EUA também abordaram o aumento da violência e do assédio contra cristãos na Terra Santa. Representantes de diferentes comunidades cristãs têm denunciado uma escalada de ataques. A diretora do Centro Inter-religioso Rossing para Educação e Diálogo, Hana Bendcowski, apresentou um relatório alarmante que documenta 155 incidentes contra cristãos em território israelense ao longo de 2025.

O relatório detalha 61 agressões físicas, 52 ataques contra propriedades da Igreja, 28 casos de assédio e 14 atos de vandalismo contra símbolos cristãos. Membros do clero são frequentemente alvo de cusparadas, insultos e assédio cotidiano. Essa situação tem contribuído para a percepção entre os cristãos de que são cidadãos cada vez menos aceitos, levantando sérias dúvidas sobre o futuro dessas comunidades em uma região de profunda importância religiosa e histórica.

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