A maternidade, em sua essência, é uma jornada de dedicação e responsabilidade contínua. Contudo, para as chamadas mães atípicas, mulheres que cuidam de filhos com deficiências, transtornos ou condições que demandam atenção especializada e acompanhamento constante, essa realidade se intensifica. A rotina é marcada por uma complexa teia de terapias, consultas médicas, adaptações familiares e uma vigilância permanente às necessidades de suas crianças.
Em meio a desafios diários, que frequentemente implicam em mudanças significativas na vida profissional e uma busca incessante por redes de apoio, essas mães enfrentam uma sobrecarga física e emocional notável. No Agreste da Paraíba, nas cidades de Campina Grande e Lagoa Seca, as histórias de Edivânia, Mônica e Andreza se entrelaçam, revelando a complexidade e a resiliência inerentes ao cuidado com seus filhos.
A jornada de Edivânia: autismo e a busca por autonomia
Edivânia teve o diagnóstico de autismo do filho Davi confirmado quando ele tinha três anos, em um período particularmente desafiador: o início da pandemia de Covid-19. A incerteza global e o isolamento social amplificaram o medo diante do desconhecido que o laudo trazia.
“Eu recebi o laudo em fevereiro de 2020. Em março, tudo fecha. E reviver, inclusive, aquele dia é bem doloroso para mim, porque era algo tão desconhecido, e a gente tem tanto medo do desconhecido, né? E era algo desconhecido e sem nenhuma perspectiva. Então eu acho que esse talvez seja o pior dos sentimentos que eu encontrei em todo o tempo”, relatou Edivânia à TV Paraíba, descrevendo a angústia inicial.
Além da adaptação a uma nova rotina, Edivânia precisou confrontar os desafios do tratamento de Davi, o preconceito em situações cotidianas e a exaustão emocional. A sobrecarga psicológica chegou a um ponto crítico, afetando sua própria saúde mental. Ela descreveu um episódio em que, no trabalho, sentiu a cabeça “explodir” e buscou refúgio em casa, sob um edredom, com algodões nos ouvidos. “Naquele dia, eu tive certeza que eu estava já entrando numa depressão. Eu lembro do dia que eu fiz isso sentada no chão da minha casa, dizendo: ‘eu preciso de ajuda'”, detalhou.
A partir da busca por apoio, Edivânia transformou sua percepção da maternidade atípica. Sua filha, Maria Eduarda Queiroz, irmã de Davi, observou a mudança. “A maior diferença que eu vi foi ela, de fato, estar incluída e disponível para entrar nesse mundo, ainda que muito incerto, e ver o quanto ela se esforçou para que o meu irmão tivesse evoluído hoje, seja em terapia, seja buscando ajuda, livros, pessoas, ou ter passado por situações que talvez seja inimaginável uma mãe querer passar”, afirmou Maria Eduarda.
Atualmente, Edivânia não é apenas mãe atípica, mas também ativista e produtora de conteúdo sobre o transtorno do espectro autista. Sua principal meta permanece inalterada: garantir a maior autonomia possível para Davi. “Eu acho que meu maior sonho hoje é tornar Davi independente. Essa é a minha maior luta. E atrás dessa ativista tem essa, a mãe que quer torná-lo independente”, concluiu.
Andreza e Antony: a vida dedicada aos cuidados com microcefalia
A história de Andreza com seu filho Antony começou ainda na gestação, em 2015. Após ser infectada pelo vírus da zika, ela recebeu o diagnóstico de microcefalia para o bebê com apenas dois meses de gravidez. Esse momento marcou o início de uma rotina de incertezas e profundas adaptações para toda a família.
“Quando a doutora Adriana Melo disse assim: ‘ele tem microcefalia e a gente não sabe como é que vai ser daqui pra frente’, eu lembro que, dentro do banheiro, eu estava com minha mãe, nesse dia que meu marido não pôde ir. Dentro do banheiro do consultório eu caí de joelho. Eu chorava, eu gritava, mas não pela patologia. Era a não compatibilidade com a vida”, relatou Andreza, expressando a dor e o desespero daquele instante.
Antes da gravidez, Andreza cursava nutrição em Campina Grande. No entanto, após o nascimento de Antony e sua primeira internação hospitalar, ela tomou a difícil decisão de interromper a graduação para se dedicar integralmente aos cuidados do filho. Desde então, a vida da família é organizada em função do tratamento de Antony, que não anda nem fala.
Há mais de uma década, Andreza e seu marido, Maurício, percorrem cerca de nove quilômetros entre Lagoa Seca e Campina Grande para levar o filho às terapias de reabilitação no Instituto Assistencial Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq). No mês passado, Antony completou 10 anos, e apesar de todas as dificuldades, Andreza reitera que o maior desejo da família é celebrar a vida do filho. “Meu filho nunca foi um peso na minha vida, nunca. E nunca vai ser”, afirmou com convicção.
Mônica, a policial militar: conciliar carreira e paralisia cerebral
Mônica sempre sonhou com uma família grande. Após enfrentar dois abortos espontâneos e o nascimento prematuro do filho Davi, a maternidade trouxe consigo desafios emocionais e transformações profundas na rotina familiar. Davi nasceu com 32 semanas de gestação, sofreu hipóxia cerebral e permaneceu entubado por 27 dias. O diagnóstico de paralisia cerebral espástica veio posteriormente, durante sessões de fisioterapia na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).
“Durante essa intubação, ninguém sabe se houve hipóxia lá também. Então foi essa hipóxia que causou a paralisia cerebral espástica. Só que o diagnóstico eu recebi quando eu tava fazendo fisioterapia com ele na Universidade Estadual da Paraíba. E, por acaso, as alunas estavam fazendo uma pesquisa sobre mães de PCs, e elas me pediram pra participar”, contou Mônica.
A paralisia cerebral espástica é uma condição neurológica que afeta os movimentos e a coordenação, causando rigidez muscular e dificuldades motoras. É o tipo mais comum de paralisia cerebral e pode ser resultado de lesões cerebrais durante a gestação, parto ou primeiros anos de vida, conforme informações do Ministério da Saúde.
Após a internação, Davi também recebeu diagnósticos de déficit cognitivo e autismo. Desde então, ele depende de cuidados constantes da mãe, que organiza toda a sua rotina em função das necessidades do filho. Além da maternidade atípica, Mônica atua como tenente-coronel da Polícia Militar da Paraíba. A necessidade de conciliar uma carreira exigente com os cuidados intensivos do filho gerou sentimentos de culpa e sobrecarga ao longo dos anos.
“Durante muito tempo, ao longo desses 11 anos que Davi tem na minha vida, eu vivi essa loucura de ficar me achando uma péssima mãe, porque estava num momento de ascensão profissional e não podia abrir mão daquilo naquele momento. E depois, eu tinha que me dedicar a ele”, desabafou Mônica. Apesar das dificuldades, o vínculo entre mãe e filho é marcado por afeto e admiração mútua. Davi reconhece o esforço diário da mãe: “Minha mãe tem bastante cuidado por mim. O meu sonho é cuidar dela. Quando eu preciso dela, ela me ajuda por tudo. Sou feliz, muito feliz por ela. Eu tenho minha família no fundo do peito”, disse o menino.
Para Mônica, a troca de experiências com outras mães atípicas é fundamental, criando uma identificação coletiva e um senso de comunidade. “A gente se vê representada nas histórias umas das outras. O que eu quero pra Davi é viver o mundo lá fora”, concluiu.
O impacto psicológico e a importância da rede de apoio
A realidade das mães atípicas transcende as histórias de Edivânia, Andreza e Mônica, refletindo um cenário nacional. Desde o momento do diagnóstico, muitas mulheres enfrentam uma sobrecarga emocional, física e financeira, permeada por incertezas e profundas mudanças na rotina familiar e pessoal.
A psiquiatra Isabella Florentino explica que o processo de receber um diagnóstico de deficiência ou transtorno para um filho é frequentemente acompanhado por sentimentos semelhantes aos vividos em um luto. “Como mãe, ela fica impactada. Passa por fases de um luto, receber um diagnóstico desse tipo. A negação, a raiva, e é preciso que passe mesmo por esses processos até chegar na aceitação. Então vai ser muito importante que ela tenha um apoio psicológico nesse período para poder ajudá-la a atravessar essa fase”, afirmou a especialista.
Mesmo após a fase inicial do diagnóstico, especialistas alertam que mães atípicas, especialmente aquelas sem uma rede de apoio sólida ou independência financeira, estão mais vulneráveis ao desgaste emocional. A neuropsicóloga Débora Paz ressalta que fatores como o preconceito social, a falta de informação e a ausência de suporte adequado contribuem significativamente para esse cenário.
“Quando ela vai sair com essa criança, ela em casa com essa criança, ela tem um nível de atenção muito maior, porque a criança pode se machucar, ela pode se autolesionar, a depender do tipo, do nível de suporte de autismo que ela tenha. É uma mãe que socialmente ela pode se isolar. Ela prefere ficar com essa criança por constrangimento ou porque a sociedade não entende muitas vezes. Então, é uma mãe que tem um risco muito maior de ter ansiedade, depressão, burnout materno”, explicou Débora, evidenciando o isolamento e os riscos à saúde mental.
Além da sobrecarga emocional e da rotina intensa de cuidados, o impacto financeiro também é uma constante na realidade dessas famílias, que precisam arcar com terapias, medicamentos e adaptações, muitas vezes sem o suporte público adequado. A luta dessas mães é um testemunho de amor e resiliência, que clama por maior visibilidade, compreensão e políticas públicas eficazes.
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