O 9 de julho é celebrado como feriado em São Paulo desde 1997, em memória da Revolução Constitucionalista de 1932. Este movimento militar representou a insurreição do estado contra o governo central de Getúlio Vargas, então em sua fase provisória na presidência do Brasil. A mobilização paulista, impulsionada por elites locais e pela busca por uma nova Constituição, marcou um período de intensa disputa política e redefinição da identidade do estado.
Entre os historiadores, a construção do 9 de julho como data cívica remete ao rápido crescimento e às mudanças de identidade de um estado e, principalmente, de uma cidade que se reorganizou nas décadas seguintes. Embora tratado como um marco cívico, o levante de 1932 não foi o primeiro movimento militar no estado nem a primeira mobilização contra um governo impopular entre suas elites.
Contexto Histórico: A Crise de 1929 e a Ascensão de Vargas
A mobilização de 1932 não surgiu isolada, mas em um cenário de profunda instabilidade. A quebra da Bolsa de Nova York em 1929 desencadeou uma crise financeira internacional que impactou severamente a produção de café em São Paulo, principal produto de exportação do estado. Essa crise foi decisiva para o sucesso do levante militar de 1930, que destituiu Washington Luís da Presidência da República e impediu a posse de Júlio Prestes, candidato apoiado pelas elites paulista e mineira. Uma junta militar marchou sobre a capital federal, instalando o gaúcho Getúlio Vargas no poder.
A Oposição Paulista e os Interventores
A ascensão de Vargas e o fim da “Política do Café com Leite” isolaram as elites agrárias e industriais paulistas do poder central. Segundo o professor Arão Davi Oliveira, da Universidade Anhanguera (Uniderp), essas elites construíram uma narrativa ufanista e unificadora para mobilizar a população contra o governo provisório de Vargas. O discurso legalista, focado na defesa da Constituição, posicionou São Paulo como “guardião altruísta da legalidade contra o arbítrio varguista”.
Uma das primeiras medidas de Vargas foi nomear seus próprios governadores, chamados de interventores, para os estados, gerando forte oposição em São Paulo. O tenente pernambucano João Alberto Lins de Barros, o primeiro interventor a permanecer por mais tempo, enfrentou resistência de políticos, intelectuais, imprensa e partidos locais, como o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Democrático (PD), de cunho conservador. Os ânimos se exaltaram até a troca de João Alberto. Em março de 1932, Pedro de Toledo, um civil, assumiu como interventor, em uma tentativa de conciliação.
O Estopim da Revolução: As Mortes do M.M.D.C.
Os ânimos se acirraram em 23 de maio de 1932, quando uma mobilização de cerca de 300 pessoas, iniciada na Faculdade de Direito, dirigiu-se à sede do Partido Popular Paulista, que apoiava Vargas, na Praça da República. O grupo pretendia “empastelar” a sede, e na prática ateou fogo em parte do prédio, onde moravam famílias sem relação com o partido. Perto dali, uma guarnição federal abriu fogo contra a população, que impedia a atuação dos bombeiros. O inquérito policial e o processo judiciário, arquivado em 1954, não conseguiram identificar os autores dos disparos.
Naquela noite, três pessoas morreram: Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia e Antônio Americo de Camargo Andrade. Poucos dias depois, Dráusio Marcondes de Sousa também faleceu. Em homenagem a eles, foi estabelecido o acrônimo M.M.D.C., que se tornou um símbolo do movimento posterior. Orlando de Oliveira Alvarenga, também ferido naquele dia, morreria em agosto do mesmo ano.
O Levante de 1932 e a Construção do Mito Paulista
Comovida pelas mortes, a opinião pública paulista se inflamou ainda mais. Em 9 de julho, Pedro de Toledo rompeu com o governo de Getúlio Vargas e foi proclamado governador do estado, iniciando a mobilização separatista. Sem o apoio esperado de outros estados que sinalizaram descontentamento com Vargas, o movimento paulista travou combates para expulsar as tropas federais, mas foi derrotado em cerca de três meses, com a rendição em 2 de outubro.
Apesar da derrota militar, a narrativa de uma vitória moral foi construída, alegando o avanço das ações pelo estabelecimento de uma Constituição Federal, que seria promulgada em 1934. Contudo, o processo de revisão constitucional já havia sido iniciado em fevereiro de 1932, antes mesmo do levante. Cafeicultores, industriais e militares do estado mantiveram-se como opositores, mais moderados, ao governo de Vargas, que permaneceu de forma contínua no poder até 1945.
A ideia de revolução foi sendo construída aos poucos e ganhou força durante os anos 1950, com a aproximação do quarto centenário da cidade de São Paulo e uma grande mudança urbana na capital paulista, com a abertura de avenidas e grandes obras públicas, como destaca o professor Francisco Quartim de Moraes, do curso de história da Universidade de São Paulo. Ele, que é autor do livro A História Invertida, analisa essa construção e suas motivações, afirmando que a ideia “falsa” de que “perdemos, mas vencemos” foi divulgada pelas grandes corporações de jornalismo da época, logo após a derrota, e “convenceu a toda a sociedade”.
Legado e Revisão Histórica do 9 de Julho
Para Moraes, estava a reboque do ideário democrático o combate às leis de cunho social de João Alberto, no estado, e do governo de Vargas. Entre as medidas criticadas, ligadas inclusive a um medo do comunismo e de uma revolução social, estavam direitos trabalhistas e a participação política de mulheres. “Meu avô e meu tio-avô, assim como muitos outros combatentes, lutaram a meu ver pela democracia, mas acredito que estavam enganados por toda essa ideologia”, contou o historiador.
De acordo com Moraes, parte razoável da oligarquia unida nesse movimento, que se insurge contra movimentos anteriores da Primeira República, como o sufragismo, o tenentismo e as revoltas de trabalhadores, tinha origem nas famílias de produtores de café e influenciou a própria Faculdade de Direito e outros centros do pensamento da época. Esse movimento, segundo o professor, teve participação de defensores da separação de São Paulo do restante do país, como o escritor Monteiro Lobato, mas também de intelectuais que defendiam ideias anticomunistas, fascistas, racistas e mesmo aproximadas com o nazismo, que se organizava na Alemanha nos anos seguintes.
“O nove de julho é uma espécie de criação mitológica de uma identidade paulista, e aí fica muito difícil você ter uma visão crítica sobre esse movimento, quando ela é sempre idealizada”, disse Moraes. Ele pondera que, embora seja normal que ex-participantes e organizações como o próprio M.M.D.C. defendam a memória do movimento de 1932, e jornais que participaram da organização mantenham essa posição, “o que eu sempre achei estranho é que essa posição fosse dominante entre os historiadores”. Moraes conclui que, embora o debate sobre 1932 tenha melhorado e se tornado mais crítico, muitos fatores permaneceram “escondidos” por muito tempo.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br



















