A Federação Internacional de Futebol (FIFA) está sob pressão de uma campanha global que exige o fim dos patrocínios de bebidas açucaradas, como refrigerantes, em suas competições, incluindo a Copa do Mundo. Lançada por ativistas e mais de 100 organizações da sociedade civil, a iniciativa “Tirem o Refrigerante de Campo” visa combater os impactos negativos dessas bebidas na saúde pública, especialmente entre crianças e adolescentes, e o que chamam de “sportswashing”.
Campanha ‘Tirem o Refrigerante de Campo’ e os Riscos à Saúde
A principal motivação por trás da campanha é a crescente preocupação com a saúde global. Estudos e dados apresentados pela iniciativa demonstram uma clara ligação entre o consumo de bebidas açucaradas e o aumento de condições como obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Para cada aumento de 250 mililitros na ingestão diária dessas bebidas, o risco de obesidade cresce 12%, o de diabetes tipo 2 sobe 19%, e a mortalidade por causas cardiovasculares aumenta 13%. O risco de mortalidade por todas as causas eleva-se em 5%.
A campanha ressalta que “para a maioria das crianças e adolescentes, um refrigerante de 355 ml já ultrapassa a quantidade diária recomendada de calorias provenientes de açúcares livres”. Organizações de saúde, meio ambiente e direitos da infância de diversos países, incluindo oito brasileiras como o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) e a Aliança pela Alimentação Saudável, integram o movimento. Elas alertam para a prática de sportswashing, conceito que descreve a associação de produtos prejudiciais à saúde com eventos esportivos e o bem-estar, criando uma “maquiagem esportiva”.
A Mobilização Global e a Carta Aberta à FIFA
Em um esforço para pressionar a entidade máxima do futebol, as organizações enviaram uma carta aberta ao presidente da FIFA, Giovanni Infantino. O documento expressa profunda preocupação com a exposição de bilhões de torcedores, muitos deles crianças, a campanhas publicitárias que ligam estrelas do futebol a bebidas açucaradas. Até o momento, a iniciativa já conquistou o apoio de cerca de 720 mil pessoas, demonstrando a ampla adesão pública à causa.
A diretora executiva do Instituto Desiderata, Renata Couto, enfatiza que a publicidade de marcas de refrigerante pode causar “consequências profundas em crianças e adolescentes”. Segundo ela, trata-se de uma “estratégia de marketing muito eficiente para fidelizar esses públicos desde cedo, podendo moldar um comportamento de consumo alimentar que não é saudável e vai gerar impacto na saúde a curto, médio e longo prazos.” A campanha argumenta que o futebol e seus torcedores merecem mais do que a normalização de produtos que comprovadamente afetam a saúde.
O Precedente do Tabaco e Outras Polêmicas Publicitárias
Os ativistas lembram que a indústria do tabaco enfrentou uma pressão similar no passado, o que levou à sua exclusão como patrocinadora de grandes eventos esportivos. A Fórmula 1, por exemplo, gradualmente afastou as companhias de tabaco de seu protagonismo nas décadas de 1990 e 2000, estabelecendo um precedente para a reavaliação de patrocínios controversos. A campanha “Tirem o Refrigerante de Campo” busca replicar esse sucesso, defendendo um ambiente esportivo que promova a saúde e o bem-estar.
A polêmica em torno da publicidade não se restringe apenas às bebidas açucaradas. A proliferação de anúncios de plataformas digitais de aposta, conhecidas como bets, também gerou críticas da sociedade civil e de autoridades. No Brasil, recentes portarias ministeriais impuseram restrições a esse tipo de publicidade, exigindo alertas como “Apostar pode causar dependência” e “Aposta não é investimento”. A Agência Brasil entrou em contato com a FIFA para obter um posicionamento sobre a campanha, mas não recebeu retorno até a conclusão da reportagem.
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