O cenário regional e a busca por qualidade de vida
A discussão sobre o fim da escala 6×1 no Brasil coloca o país diante de um espelho regional. Enquanto o debate ganha força no Congresso e nas redes sociais, nações vizinhas como Colômbia, Chile e México já consolidaram mudanças legislativas que reduzem o tempo dedicado ao trabalho. O movimento, que busca equilibrar produtividade com bem-estar social, reflete uma tendência global impulsionada por novas demandas de saúde, lazer e convivência familiar.
Diferente da Argentina, que sob a gestão de Javier Milei flexibilizou as normas permitindo jornadas de até 12 horas diárias, a tendência em grande parte da América Latina tem sido a de encurtar o tempo de serviço. Esse movimento, embora enfrente resistência de setores empresariais, é frequentemente apresentado como uma resposta a pressões sociais e uma adequação às diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que recomenda jornadas mais curtas para garantir a sustentabilidade do trabalhador.
Colômbia e o papel da estabilidade política
Na Colômbia, a transição para uma jornada de 42 horas semanais foi um processo gradual iniciado em 2021. Curiosamente, a proposta partiu de um governo de direita, liderado por Iván Duque, funcionando como uma estratégia para apaziguar os ânimos após a intensa revolta social de 2019. O projeto, que reduziu a carga horária sem cortes salariais, foi visto por especialistas como uma tentativa de evitar reformas mais profundas em um momento de fragilidade institucional.
O professor Sebastián Granda Henao, da UFGD, aponta que a medida contou com o aval de parte do empresariado, justamente por ter sido articulada por forças conservadoras. Posteriormente, com a eleição de Gustavo Petro em 2022, o país avançou ainda mais, implementando reformas que garantiram adicionais noturnos e limites mais rígidos para o trabalho em domingos e feriados, consolidando uma nova fase nas relações laborais colombianas.
México e Chile: reformas sob governos progressistas
No México, a mudança para 40 horas semanais foi impulsionada pela força política do partido Morena. Sob a gestão de Claudia Sheinbaum, o país aprovou uma redução gradual que deve ser concluída em 2030. A alta popularidade do governo permitiu que a reforma avançasse com resistência limitada da oposição, que, segundo analistas, encontra dificuldades para se articular como uma força política significativa no atual cenário mexicano.
Já no Chile, a redução da jornada de 45 para 40 horas foi um reflexo direto do “estallido social” de 2019. O governo de Gabriel Boric, eleito na esteira dessas mobilizações, conseguiu sancionar a lei em 2023. O processo chileno destaca-se pela negociação: embora o empresariado tenha manifestado preocupações com os custos econômicos, o texto final incorporou mecanismos de flexibilidade na distribuição das horas, permitindo que a transição ocorresse de forma menos traumática para o setor produtivo.
O desafio brasileiro no horizonte
O Brasil, que consolidou a jornada de 44 horas na Constituição de 1988, vive hoje um momento de impasse. A proposta de reduzir a carga horária para 40 ou 36 horas, eliminando a escala 6×1, enfrenta um embate de narrativas. Enquanto defensores apontam ganhos diretos na saúde mental e na produtividade, críticos temem impactos negativos no Produto Interno Bruto (PIB) e na inflação.
A experiência latino-americana demonstra que, independentemente da orientação política do governo, a redução da jornada é um tema que exige diálogo entre Estado, sindicatos e empresas. Acompanhar os desdobramentos dessas reformas nos países vizinhos é fundamental para entender o futuro do trabalho no Brasil.
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Fonte: jornaldaparaiba.com.br


















